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Diretor diz por que adaptação de clássicos para cinema não deve reverenciar

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Johnny Depp faz uma participação muito especial em "Assassinato no Expresso do Oriente" Imagem: Divulgação

Eduardo Graça

Colaboração para o UOL, em Los Angeles

2017-12-05T04:00:00

05/12/2017 04h00

Existe diferença entre as obras imortais de Shakespeare, os super-heróis de gibi ou os livros de mistério de Agatha Christie? Para o ator e diretor Kenneth Branagh, que adaptou para o cinema "Assassinato no Expresso do Oriente", não faz sentido classificar estas obras a partir de uma gradação de mais ou menos eruditas. "É tudo obra de arte, cara", ele defende, em conversa com o UOL.

"Li Shakespeare e Agatha Christie ao mesmo tempo em que as HQs da Marvel, quando era criança em Reading (cidade no sudeste da Inglaterra). Tudo, para mim, era entretenimento popular, e cada vez mais acho que estou certo a respeito disso", diz.

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Kenneth Brannagh em cena de "Assassinato no Expresso do Oriente" Imagem: Divulgação

Indicado a cinco Oscars, Branagh teve uma vitoriosa carreira de ator, iniciada no teatro. Este ano, além de encarnar o protagonista Hercule Poirot na tela, o norte-irlandês de 56 anos pode ser visto em cena no festejado "Dunkirk", de Christopher Nolan. Do lado de lá da câmera, ele adaptou para o cinema, entre outros, "Henrique V" (sua estreia, em 1989), "Muito Barulho por Nada" (1993) e "Hamlet" (1996) e "Thor" (2011).

E agora ele chega com "Expresso", aquele que é, muito provavelmente, o livro mais popular da criadora de personagens caros aos fãs de mistério, como a querida Miss Marple e a dupla espoleta Tommy e Tuppence Beresford. "Não me prendo mais a nichos, mercados, tendências, muito menos julgo o público. Agatha Christie já foi moda e considerada ultrapassada tantas vezes", diz Branagh. "Quando penso em uma adaptação, seja de Shakespeare, super-herói ou Agatha Christie, minha certeza é a de que o grande público não está nem acima nem abaixo de mim intelectualmente".

Branagh diz ainda que, no caso do autor de "Romeu e Julieta", quando se faz uma adaptação malfeita de sua obra para o cinema a produção "mais parece um quadro descolorido". "A incompetência ou o excesso de reverência de quem adapta pode transformar o brilhante em lixo. Não dá para se debruçar sobre Shakespeare ou em super-heróis ou Christie de modo reverente a estas obras, como se você estivesse entrando em uma igreja".

Nova versão para o cinema

A nova versão de "Assassinato no Expresso do Oriente" --o livro foi publicado pela primeira vez em 1934-- não é, segundo Branagh, um remake exato do filme de 1974 dirigido por Sidney Lumet, que rendeu um Oscar para Ingrid Bergman (melhor atriz coadjuvante) e outras cinco indicações, incluindo a de melhor ator (para Albert Finney, encarnando o detetive com o mais bem aparado bigode da Europa).

Branagh apostou em um elenco estelar. Além dele próprio na pele de Poirot, entre os suspeitos do assassinato em plena viagem férrea Europa adentro aparecem os personagens de Judi Dench, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Johnny Depp, Derek Jacobi, Michelle Pfeiffer e Daisy Ridley, a protagonista da nova encarnação de "Star Wars". "O mais complicado foi conciliar a agenda de todo mundo", ele diz, contando que suas influências para a adaptação foram os filmes "Inferno na Torre" (1974) e "Conspiração do Silêncio" (1954).

Sucesso de público --Branagh contou com um orçamento de US$ 55 milhões e as bilheterias, mundo agora, já ultrapassaram os três dígitos--, o filme não foi até agora um sucesso de crítica como o original à época. Pois o sujeito que, na TV, viveu o detetive sueco Kurt Wallander, vulnerável e complexo, diz não estar nem aí para grifes (a adaptação noir do personagem criado por Henning Mankell foi uma produção da BBC).