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Antonio Banderas virou um astro de filmes B em 2017 (e isso é maravilhoso)

Antonio Banderas em cena do filme "Gun Shy" - Divulgação - Divulgação
Antonio Banderas em cena do filme "Gun Shy"
Imagem: Divulgação

Eduardo Pereira

Do UOL, em São Paulo

28/12/2017 04h00

Existem exceções, mas a verdade é que uma grande parte dos atores de Hollywood experimenta o sucesso de forma passageira. Pense em Geena Davis, Winona Ryder, Danny Glover ou Molly Ringwald: não importa quantos estouros nas bilheterias tenham emplacado em seu auge, o futuro na maior indústria de cinema do mundo guardou para eles menos glamour, destaque e, mais importante, trabalho de qualidade.

Por isso que, para continuar trabalhando, vemos atores e atrizes aceitando papéis nem tão prestigiosos assim. Mas se essa é a regra, ela pressupõe uma exceção, e 2017 está aí para trazê-la em grande estilo para os fãs de bons filmes ruins: na forma de Antonio Banderas.

Antes o representante máximo do latin lover na terra do Tio Sam, o eterno Zorro é agora um cinquentão (quase sessentão) de respeito, e tem naturalmente perdido papéis em grandes produções e franquias para outros atores mais jovens. Resultado? A bela face do galã passou a estampar cada vez mais os famigerados filmes B, daqueles que fazem seus recentes papéis em "Bob Esponja" e "Os Mercenários 3" parecerem do nível de Oscar.

Mas Banderas nunca precisou de Hollywood, muito menos agora que volta e meia protagoniza um novo filme-conceito de Almodóvar, uma cinebiografia prestigiosa na Espanha, ou até uma temporada de série de TV como Pablo Picasso. Por isso o saudoso Gato de Botas de Shrek pode ficar à vontade, ainda que cercado de amadores e encenando premissas toscas em filmes que virarão DVDs em prateleiras de supermercados, ou links obscuros de Netflix.

Cena do filme "Segurança em Risco" com Antonio Banderas - Divulgação - Divulgação
Cena do filme "Segurança em Risco" com Antonio Banderas
Imagem: Divulgação

"Segurança em Risco"

É essa tranquilidade que tem dado frutos surpreendentemente divertidos. Pegue, por exemplo, "Segurança em Risco", o primeiro "grande" lançamento do astro neste ano. Nele, um Banderas barbado precisa proteger um shopping center da invasão de uma série de bandidos liderados por Ben Kingsley (que, tendo ganhado um Oscar vivendo Ghandi, só pode ter feito esse filme por caridade), numa versão descaradamente de baixo orçamento do clássico natalino "Duro de Matar".

Nele, o astro encarna o John McLane hispânico perfeito, mesclando sua cara de indignação diante da falta de talento de seus colegas de cena com a indignação que seu personagem, o "homem durão" do filme, teria diante da incompetência de seus colegas de trabalho. Metalinguagem pura.

Nas cenas de ação, Banderas surpreende ao não lesionar o ciático com belas derrubadas e tesouras de dar inveja nos dois maiores zagueiros da história da Família Júnior, Roque e Baiano. Já nos momentos mais "dramáticos", o astro vende tranquilamente monólogos e frases de efeito tal qual um Arnold Schwarzengger com 1/3 do tamanho do original e outro tipo de sotaque pesado. Mesmo no papel mais canastrão possível, Banderas não abraça o clima fúnebre que embala o crepúsculo profissional de atores decadentes. Ele realmente dá o melhor de si e se diverte no processo.

"Gun Shy"

É o que ele claramente se propõe a fazer ainda mais em "Gun Shy", comédia de ação que traz o ex-Zorro sob o refinado olhar do diretor Simon West, de dramas cabeça como "Con Air", "Lara Croft: Tomb Raider" e "Os Mercenários 2". Banderas faz sua melhor imitação de Russel Brand possível, na pele de um rockstar desastrado e inconsequente que precisa pegar em armas para resgatar sua esposa das mãos de sequestradores.

Não é preciso muito para imaginar o quão horrivelmente incrível a trama se torna a partir dessa premissa, mas o trailer excede expectativas com a junção da peruca bizarra de Banderas e uma sequência em que ele dirige uma mala de rodinhas por uma rua repleta de carros. Puro ouro.

A curva de declínio rumo ao sucesso invertido só aumenta com outros dois mergulhos no cinema "meia-boca" neste ano: em "Bullet Head", no qual o galante espanhol contracena com os grandes John John Malkovich e Adrien Brody (aquele rapaz cuja carreira começou e acabou com o Oscar por "O Pianista"); e em "Atos de Vingança", em que Banderas encarna um advogado que perdeu sua família e passa a seguir um voto de silêncio até matar todos os responsáveis por sua perda.

O ano de 2017 foi incrível para os fãs de filmes bons de ação, com longas superproduzidos e altamente competentes como "John Wick 2" e "Atômica". Mas para quem gosta de algo menos polido e, talvez, criminosamente mais divertido (ainda que de forma acidental), essa nova fase da carreira de Antonio Banderas é um intenso raio de luz.