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"Brilho de uma Paixão" narra romance de poeta inglês John Keats

Divulgação
Fanny Brawne (Abbie Cornish) e John Keats (Ben Whishaw) iniciam um romance em "Brilho de Uma Paixão" Imagem: Divulgação

SÃO PAULO (Reuters) - Em alguns dos melhores filmes da neozelandesa Jane Campion, a arte é mais do que uma forma de expressão, é a forma como personagens transpõem barreiras físicas ou emocionais.

No mais recente filme da diretora, "Brilho de uma Paixão", está o poeta inglês do século 19 John Keats (Ben Whishaw, de "O Perfume"), o último dos românticos, que morreu jovem, aos 25 anos e teve um único amor na vida, Fanny Brawne (Abbie Cornish, de "Um Bom Ano").

Um amor tão poético quanto etéreo e platônico. Seria muito fácil transformar a história do casal num amontoado de clichês, com um poeta romântico morrendo no final sem que a paixão realmente se consumasse.

Em "Brilho de uma Paixão", que estreia nesta sexta-feira, o talento de Jane Campion permite-lhe evitar as armadilhas do lugar comum e transforma a história de Keats e Fanny numa elegia ao amor e à poesia.

Nos trabalhos anteriores, como em "O Piano", que levou a Palma de Ouro em Cannes em 1993, a relação de uma mulher muda (Holly Hunter) com o seu instrumento é a sua forma de se comunicar com o mundo. Em "Um Anjo em Minha Mesa" (1990), a protagonista Janet Frame (Kerry Fox) encontra a salvação para seus problemas mentais na literatura e se torna uma das maiores escritoras da Nova Zelândia.

A primeira coisa que a cineasta fez foi varrer a poeira do tempo que costuma pesar sobre filmes de época. A segunda foi baixar o tom declamatório e meloso comum a tantos filmes românticos e criar um drama delicado sobre duas almas gêmeas à frente de seu tempo que foram felizes enquanto puderam.

Fanny é a filha da senhoria da casa onde mora Keats. Os dois vivem um romance por três anos, no qual a poesia dele tem um papel central.

É a arte, novamente, expressando sentimentos e estabelecendo a comunicação entre personagens. "Confesso que não acho seus poemas fáceis", diz ela.

"Um poema deve ser compreendido pelos sentidos", explica ele. Talvez seja essa mesma percepção que se aplica a "Brilho de uma Paixão", cujo título original "Bright Star" (?estrela cintilante') vem de um dos mais famosos poemas de Keats.

"Brilho de uma Paixão" é uma festa para os olhos com a fotografia de Greig Fraser, que tem em seus créditos o segmento dirigido por Jane Campion na obra coletiva "Cada um com seu Cinema".

BELEZA DE IMAGENS; BELEZA VERBAL

A trilha sonora é minimalista e assinada por Mark Bradshaw, composta de poucos acordes que nunca são invasivos, mas refletem o que parece estar acontecendo dentro da cabeça dos personagens. A diretora busca uma beleza de imagens que corresponda à beleza verbal da obra do poeta.

Keats parece estar em busca de uma musa que não apenas inspire os seus poemas, mas também os leia, compreenda e discuta. Aos poucos, Fanny é capaz de assumir essa posição.

Os dois nunca sabem, na verdade, o que fazer com o desejo carnal, que parecem sublimar em suas artes. Ela gosta de costurar, mas não apenas vestidinhos ou roupinhas simples. Fanny é o que hoje em dia se chamaria de estilista. Ela cria, obedecendo a uma necessidade de expressão muito grande presa dentro de si numa época muito conservadora.

O relacionamento entre Fanny e Keats poderia ser menos complicado não houvesse entre eles Brown (Paul Schneider, de "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford"). Melhor amigo de Keats, ele se preocupa com a obra do poeta e teme que o outro esteja desperdiçando sua genialidade com uma paixão fadada ao fracasso. O conflito entre Fanny e Brown, que também é poeta, tem ao centro as atenções de Keats.

Keats não pode se casar com Fanny porque não tem dinheiro. Por isso, seu amor é sublimado nas cartas e poemas - que, junto com uma biografia do poeta, escrita por Andrew Motion, serviram de base para o roteiro, assinado pela diretora. A paixão entre os dois poderia explodir, não fossem as amarras das convenções sociais da época.

Campion filma a história com um ritmo de tempo presente, não com um olhar do nosso presente observando o passado. Os movimentos de câmera, closes e outras imagens são um sopro de ar fresco sobre o peso do tempo que poderia cair numa história de um amor tão singelo como o de Fanny e Keats.

O que pudesse ser o empecilho para o filme - mostrar um poema sendo escrito - se torna a forma que Keats, como personagem, encontra para transpor as barreiras que limitam a sua vida, a sua paixão. Durante os créditos finais, enquanto são recitados alguns dos versos mais famosos do poeta, é fácil compreender o que seduziu a diretora a contar a sua história de amor.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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