Novo Shrek vive crise de meia-idade e falta criatividade
SÃO PAULO - Shrek está cansado! E não parece estar sozinho. Em seu novo filme, "Shrek para Sempre", o quarto da série, o ogro enfrenta uma séria crise da meia-idade, enquanto seus roteiristas e diretor enfrentam uma crise de criatividade. O longa consegue ser um pouco melhor do que o terceiro, lançado em 2007, mas ainda assim passa um tanto longe da magia, sagacidade e originalidade do primeiro filme, de 2001.
Em "Shrek para Sempre", que estreia no Brasil em cópias convencionais, 3D e IMAX, nas versões dubladas ou legendadas, há algo de errado no Reino de Tão Tão Distante. Afinal, não faz muito sentido um filme infantil que tem como tema central a crise da meia-idade.
Em todo caso, o novo Shrek segue a linha dos dois últimos filmes, ou seja, vai pela cartilha da animação fofinha, com uma piadinha aqui e outra ali, dezenas de referências pop e olho grande na bilheteria.
O que o primeiro filme trazia de inovador, de audacioso ao revirar o mundo dos contos de fadas e, por consequência, da mentalidade dos desenhos da Disney, perdeu-se ao longo de quase 10 anos. Embora os quatro filmes mantenham uma forte identidade visual, a audácia já não faz parte do repertório.
A história, creditada a Walt Dohrn - que também dubla o vilão na versão em inglês -, pega emprestado o mote central de "A Felicidade não se Compra", com a pergunta: como seria o mundo se Shrek não tivesse beijado Fiona?
A resposta vem do acordo que Shrek (voz de Mike Myers, de "Bastardos Inglórios", na versão legendada) faz com o traiçoeiro Rumpelstiltskin - um personagem cooptado de um conto dos irmãos Grimm. Aqui, ele é conhecido por seus acordos com letras minúsculas no rodapé, que, no final das contas, transformam-se em grandes problemas.
Durante a festa de um ano de seus três filhos, Shrek surta. Está cansado de ser marido, pai, motivo de zombaria e não assustar mais ninguém. E enquanto vaga sem rumo encontra Rumpelstiltskin, Rumple para os íntimos.
Seu acordo consiste em dar ao ogro novamente um dia de glória, como ele tinha no passado, aterrorizando pessoas e correndo como uma fera doida por aí. Em troca, Shrek dá outro dia de sua vida.
Nesse acordo mefistofélico, porém, Rumple consegue reverter toda a história. Shrek não beija Fiona; portanto, ela continuará a sofrer sua maldição (princesa durante o dia, ogra durante a noite). E o próprio Rumple se torna rei de Tão Tão Distante, transformando o local, que parece viver numa eterna Idade Média, num Halloween eterno, um paraíso para bruxas e outras criaturas malignas.
Os ogros vivem no subterrâneo e Fiona (no original dublada por Cameron Diaz, de "A Caixa") é uma espécie de líder da resistência, que vive planejando uma revolta para tomar o poder. O Gato de Botas (Antonio Banderas, de "A Lenda do Zorro") está mais gordo do que nunca e é seu confidente.
Com esses elementos, o diretor Mike Mitchell ("Super-escola de Heróis") extrai uma animação meio engraçada, meio sonolenta, às vezes exageradamente emocional, que quase nunca faz lembrar o primeiro filme. Intacta na série parece estar apenas a trilha sonora, com canções pop, com destaque para "Top of the World", na versão original dos Carpenters, usada na cena quando Shrek recupera o seu 'mojo', como diria Austin Powers, outro personagem imortalizado por Myers.
Como tem acontecido com a maioria dos filmes lançados em 3D, o efeito não faz muita diferença. As cópias convencionais dão conta de mostrar bem a animação e seus detalhes. Prometidamente, essa é a última aventura de Shrek no cinema. Ufa! Afinal, um 'felizes para sempre' definitivo não faria mal para Shrek, Fiona e cia.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb
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