Cinema

Cineasta vira espião de uma firma de direito

Por Eriq Gardner

LOS ANGELES, EUA - O documentarista Jason Glaser, que foi à Nicarágua entrevistar pessoas sobre suposta exposição a pesticidas em plantações de bananas da multinacional de alimentos Dole, depôs em uma ação cível, dizendo que atuou como agente disfarçado de uma firma de direito do Texas.

"Decidi que o filme não ia mudar grande coisa neste mundo", disse Glaser na quinta-feira, falando no banco de testemunhas durante o julgamento de uma ação envolvendo seis homens que afirmam ter ficado estéreis por exposição a pesticidas. "Decidi colaborar com a firma e ajudar no processo legal. Decidi utilizar o filme para esse objetivo."

Deixando de lado a questão de o que é mais nobre hoje em dia --fazer cinema documental ou praticar direito--, isso não suscita preocupações para cineastas que talvez não queiram que seus entrevistados suspeitem que estão lidando com um espião secreto?

Coincidentemente, a Dole travou recentemente uma disputa separada com outro documentarista. A empresa moveu uma ação por difamação contra um cineasta sueco por não fazer modificações que ela sugeriu em um documentário. O cineasta respondeu movendo uma ação contra a empresa, e a Dole acabou desistindo de sua ação.

Atualmente, em ainda outro caso, o cineasta Joe Berlinger está lutando para não entregar à Chevron 600 horas de imagens não editadas filmadas para um documentário sobre poluição petrolífera no Equador. Fato interessante, a empresa Dole prestou um depoimento no caso da Chevron.

Como disse recentemente o Projeto Cidadania, Mídia e Direito, "está em jogo a amplitude da proteção garantida a materiais não publicados colhidos para finalidades jornalísticas e, em última análise, a confiança básica entre jornalistas e suas fontes."

De volta ao caso de Jason Glaser: o advogado da Dole teve a oportunidade de inquirir o documentarista, e este revelou que a firma de direito do Texas pagou 17 mil dólares mensais a ele e sua equipe de filmagem, além de pagar as despesas de seu escritório, incluindo faxineira e jardineiros.

O cineasta disse que quis ser "mais que um cineasta" e fazer uma diferença concreta.

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