Filmes e séries

Super-herói confronta com humor o passado fascista de Portugal

Reprodução
Cena de "Capitão Falcão", de João Leitão Imagem: Reprodução

Andrei Khalip

Em Lisboa

10/12/2013 17h58

Os portugueses preferem não falar, muito menos fazer piadas sobre a ditadura fascista de António Salazar (1932-1968), o que pode explicar por que foi preciso um "super-herói" para levar o assunto à comédia no cinema.

O mascarado e bigodudo "Capitão Falcão" é o mais confiável capanga de Salazar em um filme com o seu nome, enfrentando a "ameaça vermelha" do comunismo e tentativas de levar a democracia a Portugal nos anos 1960.

A muito aguardada estreia do filme --no qual Falcão, dirigindo uma motocicleta, e seu ajudante Puto Perdiz combatem comunistas barbudos em macacões vermelhos, armados de foices e martelos-- deve ocorrer em meados do ano que vem nos cinemas portugueses.

Longe de ser uma apologia ultraconservadora, o filme é uma paródia criada para "exorcizar pelo riso alguns de nossos demônios do passado", disse o diretor João Leitão, de 32 anos, cuja equipe descreve Falcão como um "ultrapatriota e ultraidiota".

As cenas foram parcialmente inspiradas pelas séries do "Batman" na TV nos anos 1960, embora o humor seja mais nos moldes da comédia da BBC dos 1980 "'Allo 'Allo!" sobre a França ocupada pelos nazistas, afirmou.

"Se nós não rimos de nós mesmos, nós não crescemos, nos arriscamos a só olhar para o passado como algo glorioso, o que é um defeito bem português", disse Leitão, enquanto encerrava as filmagens em um escuro hangar em Lisboa.

"É assustador que na nossa atual crise econômica haja pessoas dizendo que 'não havia desemprego no tempo de Salazar'", acrescentou. Portugal, que precisou recorrer a um pacote de resgate financeiro em 2011, só recentemente saiu de sua pior recessão desde os anos 1970.

Salazar governou Portugal e suas colônias com mão de ferro por décadas. Seu autoritário governo chamado de Estado Novo, sustentado pela polícia secreta Pide, sobreviveu a ele e acabou caindo em 1974, na Revolução dos Cravos, na qual praticamente não houve derramamento de sangue.

Mas ele continua sendo uma figura que divide o país. Uma pesquisa da TV estatal em 2007 apontou-o como a maior personalidade na história portuguesa.

Ao contrário da vida real, na qual seus oponentes sequestrados costumavam ser torturados, no filme Salazar é capturado por comunistas e tem de ser resgatado por Falcão.

"Eu nasci quando Salazar chegou ao poder, então, quando li o roteiro, pensei: 'Meu Deus, eles vão me matar se eu o interpretar, vou precisar de guarda-costas'", disse o veterano ator português José Pinto, de 84 anos. "Mas agora acho que as pessoas vão divertir-se, e se surpreender", completou.

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