Topo

Novo filme de Manoel de Oliveira é pequena joia de dramaturgia

Neusa Barbosa

Do Cineweb*

16/01/2014 14h24

Assim como há compositores que se dedicam à música de câmara, o centenário diretor português Manoel de Oliveira realiza um cinema com intenso grau de sofisticação, produzindo pequenas joias de dramaturgia, clima e interpretação, como "O Gebo e a Sombra", que estreia nesta sexta-feira (17) nos cinemas.

Adaptando uma peça de Raul Brandão, ambientada no século 19, Oliveira produziu um clima de Anton Tchecov, no minimalismo dramático eficaz do filme, que conta a história de um casal, formado por um velho cobrador, Gebo (Michael Lonsdale) e sua mulher, Doroteia (Claudia Cardinale), que vivem na penúria, na companhia da nora, Sofia (Leonor Silveira). O filho deles, João (Ricardo Trêpa), desaparecido há oito anos, é o motivo da dor secreta de todos.

Num cenário bastante teatral, que condiz com a origem do texto, e iluminação sombria, evocando um ambiente por vezes expressionista --mérito da fotografia inspirada de Renato Berta --, o filme revela o relacionamento entre estes poucos personagens, aos quais se somam, numa sequência, amigos que vêm para o café: o músico Chamiço (Luís Miguel Cintra) e a vizinha Candidinha (Jeanne Moreau).

O café com estes amigos --uma das cenas mais vivas e eloquentes de todo o filme, inclusive com humor-- é um dos poucos momentos em que a família rompe sua solidão, afligida pelo passado sombrio de João. Sofia e Gebo dedicam quase toda a sua energia a ocultar da matriarca Doroteia a atividade criminosa de seu filho, contribuindo para mantê-la num eterno sentimento de ilusão.

Um choque de realidade a aguarda, no entanto, com a volta repentina do filho. Todos ali sobrevivem do modesto emprego do velho Gebo e parecem conformados com essa pobreza digna, ao mesmo tempo que uma ternura melancólica suaviza a aspereza do cotidiano.

O mesmo não acontece a João, dominado por uma fúria interior que o empurra a arrancar da vida e dos que estão à sua volta o que deseja e acha que merece, independentemente das consequências.

Com mais um trabalho em que aproxima duas artes, o teatro e o cinema, a exemplo do que faz seu colega veterano francês Alain Resnais, o diretor português comprova sua intuição certeira ao adaptar a história, escrita no início do século 20, num contexto em que a crise econômica europeia atual recoloca as questões contidas no texto original - como o conflito entre uma pobreza honrada e a ambição desmedida de enriquecer a qualquer custo, ou partir para o crime diante da estagnação sem perspectivas.

Poucos além de Manoel de Oliveira conseguiriam atrair a um mesmo projeto atores do quilate da italiana Claudia Cardinale, os franceses Michael Lonsdale e Jeanne Moreau, ao lado de seus habituais intérpretes portugueses, Leonor Silveira e Luís Miguel Cintra.

O conjunto e a naturalidade de suas atuações é um dos momentos em que o cinema mostra o que de melhor se pode extrair dele. Ao lado deles, Ricardo Trêpa, neto e também ator frequente dos filmes de Oliveira, esforça-se, mas não atinge a mesma excelência de suas interpretações.

Pena que, por questões de produção, o filme seja falado em francês, privando o público falante de português da riqueza dos diálogos originais da peça.

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb