Filmes e séries

"O Jogo da Imitação" mostra cientista gay que ajudou a vencer 2ª Guerra

Nayara Reynaud

Do Cineweb

04/02/2015 16h24

Sentar no computador, abrir o notebook ou pegar o smartphone para acessar a internet, ler, escrever, calcular e mais uma imensa lista de possíveis tarefas fazem parte da rotina das pessoas na contemporaneidade.

É justamente no fato de dar o devido reconhecimento ao trabalho de Alan Turing (1912-1954), um dos responsáveis por tudo isso, que se encontra, junto às atuações, o maior feito de "O Jogo da Imitação" (2014), de Morten Tyldum.

O matemático inglês Turing foi pioneiro no conceito do que viria a ser o computador, da própria ciência da computação e da inteligência artificial. E apesar de ter tido papel fundamental para a vitória do seu país e dos outros Aliados na 2ª Guerra Mundial, sua contribuição no conflito permaneceu secreta por meio século.

Além disso, foi humilhado publicamente por ser homossexual em uma Inglaterra onde, há apenas 60 anos, isso era ilegal, sendo condenado a injeções hormonais que causam castração química.

Inspirado na biografia de Andrew Hodges, "Alan Turing: The Enigma", o roteiro do novato Graham Moore, que já deu origem ao telefilme "Breaking the Code" (1996), dá o devido tratamento ao biografado, ainda que, às vezes, não esteja à altura de sua personalidade excêntrica.

Apoiado sobre três momentos marcantes na existência de Alan, Moore costura eficientemente seu script, começando com o interrogatório policial a que Turing (Benedict Cumberbatch) foi submetido em 1951, que seria seguido pela sua condenação, terrível tratamento e culminaria em um aparente suicídio por ingestão de cianeto.

O inquérito serve de base para a narração em off do protagonista, durante a qual entram algumas lembranças de seus tempos escolares, quando a amizade especial com seu colega Christopher (Jack Bannon) é essencial para suportar o bullying que sofria.

Entretanto, o longa se debruça mais no período da 2ª Guerra, quando, com 27 anos, o jovem prodígio participa do recrutamento realizado pelo comandante Denniston (Charles Dance) e o espião Stewart Menzies (Mark Strong), para montar uma equipe secretamente na "fábrica de rádios" Bletchley Park (uma fachada para o local), que fosse capaz de decodificar as mensagens inimigas, criptografadas pelos alemães com as máquinas Enigma.

Não se menciona no filme, mas especialistas poloneses já haviam decifrado o código nazista e compartilhado informações com franceses e ingleses antes da invasão alemã, em 1939. Mas como novos ajustes eram feitos constantemente pelos nazistas, a criptografia Enigma se tornava cada vez mais complexa e descobrir o conteúdo de um único telegrama levaria muito tempo, como mostrado na produção.

Por isso, Alan, à parte do grupo liderado pelo campeão de xadrez Hugh Alexander (Matthew Goode) e pedindo verbas diretamente ao primeiro-ministro Winston Churchill, investe na construção de uma máquina capaz de processar os milhões de possibilidades de codificação a tempo de antever ataques e que levou anos para funcionar.

Essa atitude é só uma das apresentadas em "O Jogo da Imitação" -- nome do teste de seu mais famoso artigo sobre inteligência artificial -- que caracterizam a personalidade de Turing, uma pessoa contida cujo máximo elogio a alguém seria um "isso realmente não é uma má ideia".

Essa altivez e seu pensamento extremamente lógico, incapaz de perceber as sutilezas de linguagem, geram alívio cômico em diversos momentos, mas também revelam o drama deste gênio que se dedicou à criptografia por não conseguir decifrar o discurso humano.

Benedict Cumberbatch, no papel da sua carreira, alcança todas essas nuances com uma incrível vivacidade, fazendo o público pensar que só ele seria capaz de interpretá-lo. O ator foi indicado ao Oscar, assim como Keira Knightley que interpreta Joan Clarke, a única mulher a fazer parte da equipe.

A atriz torna sua coadjuvante interessante ao mostrar não só alguém que foi capaz de adentrar no mundo do matemático, mas cuja vontade de impor sua voz frente a todos os obstáculos fez dos dois grandes amigos.

O elenco, aliás, é o principal trunfo desta produção milimetricamente pensada para o Oscar. As oito indicações têm o dedo da distribuição dos irmãos Weinstein, porém o filme tem seus méritos técnicos, especialmente, na produção de arte de Maria Djurkovic, com máquinas da época; na montagem de William Goldenberg, compondo o heroísmo de Turing e seus colegas; e na trilha eficiente de Alexandre Desplat.

Em sua estreia em uma produção em língua inglesa, o norueguês Tyldum pode não mostrar a mesma força de seu trabalho anterior, o surpreendente thriller "Headhunters" (2011), adaptado de um best-seller de Jo Nesbø, que é o maior sucesso comercial de seu país. Ainda que peque pelo conservadorismo, sua direção mantém a tensão necessária para fisgar o espectador.

No entanto, é somente quando o grupo consegue finalmente decifrar o Enigma que o cineasta imprime no "poder de ser Deus" conferido a eles, o questionamento ético que dá novo impulso à obra, que também lembra o absurdo da criminalização da homossexualidade na Inglaterra.

Alan Turing, com toda a sua genialidade e serviços prestados à nação, só conseguiu o perdão real por sua "indecência grave" em 2013. Outros 49 mil homens comuns ainda carecem dessa reparação.

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!

do UOL
do UOL
UOL Cinema - Imagens
Cinema
do UOL
AFP
do UOL
Reuters
AFP
do UOL
Reuters
do UOL
Reuters
do UOL
BBC
do UOL
Chico Barney
do UOL
do UOL
UOL Cinema - Imagens
UOL Entretenimento
Cinema
do UOL
AFP
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
AFP
do UOL
Cinema
Roberto Sadovski
do UOL
do UOL
Chico Barney
UOL Cinema - Imagens
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski

As 25 melhores histórias em quadrinhos da Liga da Justiça

Pincelar as melhores histórias da Liga da Justiça é um trabalho complexo. Não pela falta de qualidade, mas pelo contraste: muita coisa entre os primórdios da equipe e o final dos anos 80 tem mais valor por sua inegável importância histórica do que por seus predicados artísticos. O gibi da Liga, afinal, viveu por anos na sombra da animação Superamigos, e isso deixou o tom das histórias mais ingênuo e infantil até a reformulação pós-Crise nas Infinitas Terras. Mas garimpar todas as fases em décadas de aventuras trouxe boas surpresas e ótimas descobertas - além do perceber que, em boas, mãos, a Liga pode ser incrível! A leitura rendeu algumas conclusões. Primeiro, não há absolutamente nada errado em usar histórias de super-heróis para fazer humor! Segundo, o horrendo período dos Novos 52, que privilegiou forma, ignorou substância e fez um flashback sinistro dos primórdios da Image Comics nos anos 90 (urgh), não foi tão cruel com a Liga. Terceiro, pouca gente escreve e entende os herói tão bem quanto Grant Morrisson e Mark Waid. No mais, a Liga da Justiça, em usas diversas encarnações, ainda é aposta certeira quando o assunto é entretenimento - afinal, só uma equipe criativa muito canhestra poderia melar uma mistura de personagens e personalidades e superpoderes tão diversa e tão bacana! Acredite, se os super-heróis mais lendários do mundo sobreviveram a Extreme Justice, nada é capaz de derrotá-los!

Topo