Cinema

David Cronenberg satiriza Hollywood em "Mapas Para as Estrelas"

Alysson Oliveira Do Cineweb, em São Paulo

Na visão de David Cronenberg, Hollywood deve ter mais círculos de danação do que o inferno de Dante. E o fogo, tanto real quanto metafórico, que aparece em seu "Mapas para as Estrelas", é o que consome os personagens do filme, que dialoga com clássicos como "Crepúsculo dos Deuses" e o romance "O Dia do Gafanhoto", de Nathaniel West (também adaptado para o cinema em 1975, por John Schlesinger).

Hollywood é uma cidade atormentada, vivendo sob um mesmo código de ética e moral, onde seus habitantes são ávidos pelos holofotes o dinheiro é uma consequência e vale tudo, no amor, na guerra e na fama. Havana Segrand (Julianne Moore, premiada em Cannes 2014 por esse filme) é uma atriz assombrada pelo fantasma da mãe, uma atriz mais famosa do que ela, morta na juventude num incêndio.

O fogo, como dito, é uma imagem que permeia todo o filme cujo roteiro é assinado pelo romancista Bruce Wagner, para quem Hollywood não é novidade. Logo se apresenta a misteriosa Agatha (Mia Wasikowska), cujas cicatrizes na pele prenunciam outras marcas emocionais mais profundas. Ao chegar à cidade, logo pega uma limusine, cujo chofer é Jerome, interpretado por Robert Pattinson, que em outro filme de Cronenberg, "Cosmópolis", não saía de outra, mas não como motorista, e sim proprietário. Ela diz ter conhecido a atriz Carrie Fisher pela internet, e essa logo lhe arruma um emprego como assistente da perturbada Havana.

O garoto Benjie Weiss (Evan Bird) é um prodígio do cinema, capaz de levar milhares para ver seus filmes, mas não consegue se livrar da assombração de uma fã morta. Seu pai, Stafford Weiss (John Cusack), é um guru da autoajuda, cujos clientes são a elite de Hollywood, capaz de pagar uma fortuna por uma terapia que envolve massagem e psicologismos Havana está na sua lista de "pacientes". A mãe do garoto é Cristina (Olivia Williams), uma mulher aterrorizada por um segredo do passado.

As cenas de "Mapas Para as Estrelas" acontecem em almoços de negócios, testes de elenco, encontros entre amigos famosos as pessoas parecem pueris e falsas umas com as outras, sempre guiadas por interesses bem maiores do que apenas amizade. Cronenberg e Wagner são de um cinismo e humor negro que faz parecer serem a única forma de abordar essa comunidade fechada que opera por leis próprias. E, realmente, não parece haver outro jeito.

Desde "Marcas da Violência" (2005), Cronenberg mostra-se interessado em expor as fissuras da matéria que une o discurso burguês. Nesse filme, ele questiona a família: até que ponto uma mulher estaria ao lado do seu marido, quando seu passado obscuro vem à tona? Em "Senhores do Crime" (2007), o diretor investiga o submundo do crime e traz o outro lado da relação familiar aqui, aquela que constrói impérios em cima de cadáveres. Em "Um Método Perigoso" (2011), sobre a relação entre Freud e Jung, o cineasta canadense questiona o discurso da psicanálise, da possibilidade de explicação do sujeito, de como o que pensamos não é bem nós que pensamos, mas somos levados a crer que sim.

Dessa fase, "Cosmópolis" (2012), baseado num romance de Don DeLillo, é o mais ácido ao investigar a narrativa criada pelo capital. É um apocalipse materializado em meio ao caos, enquanto o investidor (Pattinson), apenas observa tudo de dentro da sua bolha (sua limusine branca) é um filme que reflete muito sobre a crise econômica de 2008 e suas consequências, como o movimento Occupy.

"Mapas Para as Estrelas" é, enfim, o passo mais lógico nessa sequência, quando, finalmente, o diretor sinaliza que a lógica do capital é a cultura e o cinema uma arma poderosa de dominação. O cinema também cria e destrói seus heróis Havana "passou da idade" e não consegue bons papeis, não consegue ser vista, daqui a pouco tempo deixará de ser famosa, eis aí a causa do seu desespero.

Nesse pesadelo de e sobre Hollywood ninguém se salva, ninguém sai impune, ninguém é bom todos, ao seu modo, são maus, todos são humanos. Agatha talvez seja a menos pior, mas nem por isso, como se revela, a menos perigosa.

Todos ali são capital humano à espera de produzir lucro para os magnatas do cinema desses, pouco sabemos. São os operários-padrão na expectativa do momento de entrar em cena e serem ludibriados com a fama e os salários milionários, sem se dar conta de que isso é uma parcela mínima daquilo que os patrões estão ganhando. A competição por um trabalho é acirrada e proporcional à profusão de cadáveres no filme, todos encontrando seu destino de forma bem cruel. Cronenberg sabe que no inferno não há nenhum anjo.

*As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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