Filmes e séries

"Terceira Pessoa" conecta histórias em autoanálise do cineasta Paul Haggis

Nayara Reynaud

Do Cineweb, em São Paulo

18/03/2015 16h10

Independentemente do meio que utilize para expressar a sua arte, um autor sempre imprimirá suas próprias questões e experiências individuais, direta ou indiretamente, em sua obra. A grande sacada é, então, transformar uma confissão pessoal em um manifesto universal, capaz de atingir e envolver o público.

O cineasta Paul Haggis bem que tenta fazer isso em seu novo filme, "Terceira Pessoa" (2013), que estreia nesta quinta (19), mas não consegue que os espectadores embarquem em sua viagem pelos seus recônditos dilemas de roteirista.

Assim como em seu primeiro longa como diretor, o vencedor do Oscar "Crash - No Limite" (2004), ele explora histórias múltiplas que se interligam para mostrar um panorama: racial, no caso de seu début, e, agora, emocional para falar de amor, verdades, mentiras e culpa.

São três tramas localizadas em diferentes metrópoles, Nova York, Roma e Paris, estreladas por um grande elenco, parecendo até uma amálgama de produções da série cinematográfica "Cities of Love", cujo último exemplar foi "Rio, Eu Te Amo" (2014).

A mais dramática delas é a nova-iorquina, focada na fracassada atriz de novelas Julia (Mila Kunis), que vê sua vida degringolar após um acidente doméstico ocorrido com seu filho.

Ela perde a guarda do garoto, que fica sob a responsabilidade do pai da criança e seu ex-marido, o pintor Rick (James Franco, em uma interpretação rasa), que não a deixa ver o pequeno.

Sem trabalho e sem amigos, a moça pula de emprego em emprego para poder sobreviver e pagar a advogada (Maria Bello), que se esforça para demonstrar a inocência da jovem mãe, que só quer ver o seu menino de novo.

Apesar de ser o que mais se utiliza de estereótipos, o segmento italiano é o que prende mais a atenção do público.

Nele, Scott (Adrien Brody, com um humor romântico), um espião industrial que rouba designs de grifes de moda, fica instigado a entrar no chamado Bar Americano antes de deixar Roma.

Lá, ele encontra a bela e misteriosa cigana Monika (Moran Atias, da série "Crash", inspirada no filme de Haggis e exibida entre 2008 e 2009), a quem fica ligado por um contratempo e também por vontade própria.

A terceira história é a do escritor premiado com um Pulitzer, Michael (Liam Neeson, longe de seus papéis recorrentes de herói de ação), que enfrenta dificuldades para escrever seu próximo livro.

Em seu quarto de hotel em Paris, ele divide as angústias da criação literária com fantasmas de seu passado familiar, retomados quando liga para a ex-mulher (Kim Basinger), e a confusão criada em seu coração pela amante, a jornalista e aspirante na literatura Anna (Olivia Wilde, usando sua beleza em favor da sua atuação, em especial nos diálogos com Neeson).

Porém, logo o espectador observa que, além das questões amorosas que aproximam as três narrativas, a culpa liga os protagonistas de cada uma das tramas, assim como a escrita de Michael.

É justamente aí, especialmente nas mirabolantes reviravoltas do último ato, que vem a mão pesada de Paul como roteirista, entrecruzando destinos tal qual fez em ?Crash?, mais próximo ao estilo de Alejandro González Iñárritu, em vez de tecer uma colcha de retalhos de um modo muito mais natural como fazia Robert Altman.

Até aí, nada demais; apesar do seu longa de estreia ser um dos ganhadores do Oscar mais controversos dos últimos anos, Haggis mantinha a tensão entre suas histórias e, ao menos, lançava uma reflexão ao público, independente de sua opinião técnica sobre a obra.

Aqui, o autor vivido por Liam Neeson cria um "romance-terapia" a partir de um alter ego que só consegue se sentir vivo através de seus personagens, o que nada mais é do que o próprio cineasta fazendo uma autoanálise.

Talvez daqui a algum tempo o autor perceberá que, apesar de tratar de temas universais, seus conflitos individuais não resultam em algo real em "Terceira Pessoa", nem em aspectos emocionais, muito menos metalinguísticos.

Cansativo —são mais de duas horas de duração— e pretensioso, é um filme que tenta ser inovador e profundo, mas que se mostra repleto de clichês e vazios existenciais.

Assista ao trailer legendado de "Terceira Pessoa"

*As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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