Cinema

Vertiginoso, "Evereste" recria história real de tragédia de alpinistas

Neusa Barbosa Do Cineweb, em São Paulo

"Evereste", do diretor islandês Baltasar Kormákur (de "Sobrevivente"), que estreia nesta quinta (24), é uma superprodução internacional que renova a fórmula do "filme-catástrofe" que teve tanta expressão nos anos 1970, com títulos como "Aeroporto", "Terremoto" e "Inferno na Torre".

Recorre, portanto, a um tema potencialmente coalhado de tragédias e sustos: vários morrem, alguns terão que sobreviver —aos melhores efeitos visuais à disposição e a um elenco multiestelar para garantir as altas bilheterias.

Melhor ainda se a história tiver raízes em acontecimentos reais, o que é o caso deste roteiro, assinado pelos experientes ingleses Simon Beaufoy ("Quem Quer Ser um milionário?") e William Nicholson ("Gladiador"), recriando a tragédia ocorrida em 1996 na mais alta e perigosa montanha da Terra, o pico do Evereste, na cordilheira do Himalaia, na fronteira entre a China e o Nepal, quando duas expedições sofrem as consequências de uma inesperada tempestade de neve.

Para proporcionar conflito e torcida, confronta-se os estilos dos líderes das duas escaladas. De um lado, está o sereno e prudente Rob Hall (Jason Clarke); do outro, o destemido e individualista Scott Fisher (Jake Gyllenhaal). Os dois já trabalharam juntos, mas as diferenças no enfrentamento dos riscos do alpinismo os separaram.

O foco recai mais sobre a expedição de Hall, que conseguiu a adesão do famoso jornalista Jon Kracauer (Michael Kelly), que então trabalhava para a revista "Outside" e seria o futuro autor do livro "No Ar Rarefeito". Ao seu lado, estão um empresário texano e depressivo, Beck (Josh Brolin), uma montanhista japonesa em sua sétima expedição, Yasuko (Naoko Mori), e um humilde carteiro e carpinteiro norte-americano, Doug (John Hawkes), que só pensa em dedicar a conquista às crianças de sua cidade natal.

À exceção de Yasuko, as mulheres não estarão na linha de frente. Atrizes famosas, como as inglesas Emily Watson e Keira Knightley, e a norte-americana Robin Wright, farão pouco mais do que figuração convencional nos bastidores —a primeira como Helen, a fiel assistente de Rob que fica numa base; a segunda como a esposa grávida dele, Jan; e a terceira, como a mulher negligenciada de Beck.

Com todos os personagens-chave a caminho do topo da montanha, as maiores emoções certamente pertencem a sequências de risco nas alturas e despenhadeiros, que as versões 3D e IMAX colocarão em melhor destaque. Quem tem vertigem pode não gostar muito, porque a altitude parece mesmo muito real nestes momentos. A neve compacta adiciona um componente de sofrimento aos alpinistas nas mesmas situações.

Embora até dedique um tempo considerável para individualizar uma grande quantidade de personagens, o filme poderia ser melhor se explorasse mais uma pequena cena, em que o jornalista Kracauer entrevista seus companheiros de escalada sobre suas motivações para correr tantos perigos mortais. Mas essa conversa é rápida e pouco consistente.

A escolha do diretor é pesar no eixo melodramático, em que ficam cada vez mais claros os impulsos quase suicidas de Scott Fisher e os perigos da grande tempestade que se aproxima, justamente quando os dois grupos chegaram ao topo do Evereste.

Muita gente poderá já ter lido sobre a história real, mas isso não é necessário para imaginar que nem todos os participantes voltarão para casa no final. Este sentido trágico não diminui o interesse no filme. Mas é justamente aí que as lacunas daquela conversa sobre as motivações para tantos riscos parecem fazer falta.

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