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Ficha completa do filme

Drama

Irmão Sol, Irmã Lua (1972)

Resenha por Sérgio Alpendre

Sérgio Alpendre

Da redação 01/01/2004
Nota 3
Irmão Sol, Irmã Lua

''Irmão Sol, Irmã Lua'' (1972) é provavelmente o melhor filme de Franco Zeffirelli. Infelizmente, quem conhece a carreira desse diretor italiano (que se sai muito bem quando dirige óperas, dizem os que entendem do assunto) sabe que tal afirmação não comprova em absolutamente nada a qualidade da obra em questão.

Zeffirelli, que vinha de duas adaptações medíocres de Shakespeare, ''A Megera Domada'' (1967) e ''Romeu e Julieta'' (1968), investe numa versão hippie da juventude de São Francisco de Assis, com canções de Donovan (que costumava ser muito melhor do que o que se ouve no filme), trilha sonora melosa insuportável e fotografia de Ennio Guarnieri (que já havia trabalhado com Pasolini, Steno, Mauro Bolognini e Pasquale Festa Campanile, entre outros). Assinam o roteiro, além de Zeffirelli, Lina Wertmüller (também diretora, predominantemente de filmes medíocres) e Suso Cecchi d'Amico, que faleceu em 31 de julho de 2010, aos 96 anos, depois de muitos grandes serviços prestados ao cinema (colaborou com diversos grandes diretores, principalmente italianos, e foi a grande parceira de Luchino Visconti), o que de certa forma a isenta de pecados como este.

Na verdade, não se trata de um filme ofensivo, ou mesmo desagradável de ver (exceto pelos momentos em que a trilha é excessiva), mas diante das referências escolhidas por Zeffirelli, esperava-se mais, mesmo com a sua tremida assinatura.

Vamos, então, às referências. Em primeiro lugar, temos "Francisco, Arauto de Deus", de Roberto Rossellini. Por tratar, também, de São Francisco de Assis, era uma referência óbvia demais para ser descartada. Mas é possível perceber um toque de Pasolini, sobretudo nos momentos em que Francisco vai conquistando os adeptos. Fellini também está presente, sobretudo quando a trupe de maltrapilhos vai a Roma receber a benção do Papa Inocêncio III (Alec Guinness, sempre altivo). Há um certo olhar de desprezo (como não olhar com desprezo para aquela riqueza toda) da câmera em direção aos adornos que contornam o papado. A arquitetura, nesse momento, é opressora, reserva ao homem (mesmo ao papa) uma posição muito baixa na hierarquia das coisas.

Esse olhar astuto de Zefirelli para as contradições da religião católica, e para esse antagonismo entre o que quer Francisco de Assis e os interesses da igreja faz com que o filme cresça nesse momento final em Roma, e seja merecedor, aos olhos deste que vos escreve, da segunda estrelinha lá em cima.

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