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Ficha completa do filme

Drama

As Invasões Bárbaras (2003)

Resenha por Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Especial para o UOL Cinema 01/01/2004
Nota 5
As Invasões Bárbaras

Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro (indicado ainda como Roteiro, também de Arcand). Premiado em Cannes como Melhor Atriz (para Marie-Josée, a jovem drogada) e de melhor roteiro. Nem sempre choro no cinema. Já vi filme demais, ando demasiado cínico para me comover com facilidade.

Mas fiquei engasgado de emoção quando vi o filme durante o Festival de Cannes. Estava sentado ao lado de José Wilker e quando ele quis comentar alguma coisa, não consegui falar. Não saia voz. Tive que esperar um pouco e secar as lágrimas para concluir que aquele era não apenas o Melhor Filme do Festival, como também possivelmente do ano. E a pior coisa era que seu diretor e roteirista, o canadense Denys Arcand, infelizmente faz poucos filmes.

A emoção que o filme me provoca se explica, porque também me identifiquei com a situação mostrada na fita, já que atravessava algo semelhante na vida. Mas não apenas por isso. Não tive como não admirar o excelente trabalho de Arcand, que é um mestre no diálogo e na narrativa (merecia ganhar um Oscar de Roteiro Original), na condução do elenco (o certo seria ter dado um prêmio coletivo para todo o elenco).

Antes de tudo, a idéia básica do filme é genial. Em 1986, Arcand fez sucesso com "Declínio do Império Americano", em que defendia a idéia de que o domínio norte-americano estava chegando ao fim, porque já dava sinais de declínio. O filme não era nenhum tratado, mas quase uma comédia de costumes, acompanhando a vida sexual e pessoal de um grupo de intelectuais canadenses, em geral de esquerda. Com uma franqueza rara na época. O filme fez boa carreira, foi até indicado ao Oscar, mas Arcand não é muito ativo (realizou o bom "Jesus de Montreal", de 1989, depois uma adaptação teatral alheia, em 1998 "Amor e Restos Humanos", e mais recentemente, uma fitinha simpática, mas fraca, chamada "Estrelato", 2000).

Este "Invasões" é uma continuação de "Declínio", com basicamente o mesmo elenco (a idéia é ainda mais notável: lembram como foi o declínio do império romano? Justamente quando os bárbaros invadiram o império e aos poucos o foram destruindo. Arcand aponta 11 de Setembro como o primeiro ataque bárbaro, o primeiro a atingir o grande império). Mas novamente o filme não é sobre isso. Agora a história é centrada num professor de esquerda que está morrendo de câncer. Apesar do apoio dos amigos, tem dificuldade de enfrentar a dor e a realidade do fim.

Principalmente quando reaparece o filho, que é um yuppie que não se dá com ele. Mas é graças ao dinheiro deste, que conseguirá quebrar certos galhos e até mesmo conseguir a morfina que tornará a doença suportável. Assim, este é um filme de "Volta ao Lar", de ajuste de contas, de fazer o balanço e reencontrar os amigos. Ou seja, de coisas cotidianas que todos nós somos capazes de entender e viver.

Também é uma crítica social aos canadenses (muita gente fica espantada como o Canadá, que hoje é pintado como um modelo para se viver, uma ilha de prosperidade e tranqüilidade, possa ter problemas iguais aos nossos, com corrupção, corporativismo, hospitais lotados, tráfico de drogas etc e tal. E um momento tocante onde mostra a decadência da Igreja católica local). Com muito bom humor, ironia, inteligência, o filme é brilhante e excelente. Capaz de restaurar nossa fé, se não na humanidade, ao menos no cinema.

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