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Ficha completa do filme

Drama

Carandiru (2003)

Resenha por Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Especial para o UOL Cinema 01/01/2003
Nota 1

Escolhido para representar o Brasil no Festival de Cannes e depois no Oscar, campeão de bilheteria no Brasil com quase 5 milhões de espectadores. A crítica foi mais fria e, apesar de tudo, não chega a ter o impacto desejado.

Este novo filme de Hector Babenco, que veio precedido de uma excelente campanha de marketing, aproveitando inclusive a popularidadedo livro original "Estação Carandiru" e de seu autor, o Doutor Dráuzio Varella, uma pessoa benquista e agora famosa na Rede Globo, era certo que fosse sucesso dee bilheteria, por conta da promoção global, pelo interesse e polêmica que despertou e até mesmo porque o público tradicionalmente (e vá se entender o porquê) gosta de filmes sobre prisões.

A primeira sensação que tive foi que "Carandiru" foi vítima da "Síndrome de Cidade de Deus", ou seja, narrado de forma tradicional, editado da maneira básica, ficou instantaneamente velho diante das ousadias formais, principalmente da edição e finalização da outra fita que tinha maior imediatismo, cara de reportagem do que este. É um problema que sofrerão todos os outros filmes nacionais por comparação, diante do alto standard de finalização criado pela fita de Meirelles (que chegou a ganhar, na Inglaterra, o prêmio BAFTA de Montagem, um feito inédito para o cinema brasileiro, que sempre esteve tecnicamente abaixo dos outros).

Impossível deixar de compará-los, e "Carandiru" sai perdendo principalmente porque outras opções não deram certo. Primeiro, a idéia de conservar a estrutura do livro, isto é, de um médico que chega ao Carandiru e vai selecionando e observando os prisioneiros, principalmente tratando uma epidemia de Aids que está em curso (depois de levantar o assunto, ele é abandonado. Nenhum dos personagens sofrerá ou morrerá disso). O problema é que o ator escolhido, Luis Carlos Vasconcellos, de "Abril Despedaçado", passa o tempo sorrindo (diante de qualquer circunstância), sem ação ou personalidade. É um personagem passivo e amorfo.

Têm certa razão os que contestam que o filme é totalmente favorável aos prisioneiros, que são todos, por mais delinqüentes, mostrados por um ângulo favorável (a direção do presídio também. Os únicos bandidos são os policiais que realizam a chacina, com inexplicável violência e nenhuma humanização). Nos tempos que correm atualmente, não é das coisas mais desejáveis defender criminosos tão contumazes. O que o livro pretendia também era denunciar as condições miseráveis e indescritíveis da cadeia do Carandiru (o filme termina com as imagens reais de sua demolição), através de alguns casos observados por lá.

O problema é que nenhum deles é especialmente original ou interessante. O que realmente incomoda é a mistura de atores amadores ou desconhecidos com outros famosos (coisa que logicamente não é percebida no exterior). Não adianta contar a história do velho prisioneiro que criou os filhos com honradez quando está se vendo ali apenas o Milton Gonçalves, um ótimo ator. Mas ou todos são atores, ou todos são não profissionais como em "Cidade de Deus", ou no mínimo parecem ser.

O caso mais evidente é o de Rodrigo Santoro fazendo a Lady Di, travesti mais romântica do lugar, que transou com mais de dois mil homens e que agora deseja se casar com um enfermeiro também prisioneiro (no livro não lembro do personagem). Claro que o ator é competente, mas não deixa de ser sempre um galã fortinho da Globo, brincando de ser travesti, o que resulta numa curiosidade mais do que numa figura forte ou marcante, até porque seu parceiro (Gero Camilo, que fez um louquinho em "O Bicho de Sete Cabeças") é natural, espontâneo, verdadeiro e com cara de gente, não um ator fingindo ser gente.

O estranho é que essa garra e força tão comum nos filmes do diretor, em particular em "Pixote", não funciona aqui, o que resulta em um elenco extremamente irregular com altos e baixos, algumas caricaturas (os evangélicos), outras figuras humanas. Talvez porque a narrativa seja episódica. O fato é que há algumas seqüências bem bonitas, seja pela veracidade ou emoção (Rita Cadillac fazendo show, o tocante hino nacional). E quando chega o clímax do final, quando sucede o lamentável massacre do Carandiru, nenhuma tentativa é feita para explicá-lo, como se fosse de domínio público.

As cenas são violentas mas não tão chocantes quanto deveriam ou poderiam. Afinal, foi uma carnificina injustificável. Mesmo porque o protagonista está ausente dela (e há a justificativa do autor de que apenas os presos foram ouvidos).

Enfim, a indignação que a seqüência deveria provocar fica aquém da proposta. Talvez seja uma questão também de expectativa, mas não se pode dizer que "Carandiru" não seja um filme bom, bem intencionado, bem feito, com um enorme esforço de produção e realização. Mas não consigo usar os superlativos que gostaria.

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