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05/03/2010 - 07h01

Em "Direito de Amar", Tom Ford coloca a moda em seu devido lugar

CAROLINA VASONE
Editora de UOL Estilo
  • O ator Colin Firth em cena de Direito de Amar, que marca a estreia de Tom Ford na direção de cinema

    O ator Colin Firth em cena de "Direito de Amar", que marca a estreia de Tom Ford na direção de cinema

“Depois que me visto, sei exatamente o papel que devo desempenhar”, diz George no início de “Direito de Amar” (“A Single Man”), que estréia no Brasil nesta sexta (5). A declaração, narrada melancolicamente em “off” enquanto o personagem (interpretado por Colin Firth) arruma, fitando-se no espelho, seu costume preto, com gravata também preta sobre camisa branca, é a primeira menção às roupas no filme dirigido por Tom Ford. E talvez a última, pelo menos com um certo grau de protagonismo. 

Na produção que marca a estreia do estilista americano no cinema, a moda é posta em seu devido lugar. Tem papel secundário, que é, afinal, o mais adequado à sua função fora das passarelas. Em “Direito de Amar”, o assunto tratado pelo designer, conhecido por ter reinventado a marca italiana Gucci, é outro: diz respeito a quais resoluções extremas sobre o sentido da própria vida pode levar a perda trágica de um grande amor, questiona a relevância dos detalhes dentro de uma história de vida. E a de George Falconer (Firth), professor de faculdade na Los Angeles do início dos anos 1960, como a de todo mundo, é cheia deles. 

O acontecimento que guiará o destino do protagonista – Colin Firth foi indicado ao Oscar de melhor ator pela interpretação deste personagem – é a morte de seu companheiro em um acidente de carro. A partir de então, momentos frugais de 16 anos de uma história de amor sólida são relembrados e intercalados à rotina de um dia na vida de George. O dia em que decidiu se matar. 

Enquadramentos cuidadosamente ensaiados, cenas com combinações sofisticadas de cores (note as nuances de marrom do momento em que George está dentro do escritório onde trabalha na escola), tudo isso faz temer que o filme possa se transformar numa sequência de imagens plasticamente bonitas, como num longo editorial de moda. Tom Ford, porém, resiste à tentação. Ainda, ironicamente, em vez de vestir, desnuda seu personagem para evidenciar sua essência. Não com o apelo sexual quase agressivo que habilmente já utilizou tantas vezes em campanhas de perfume, dos lançados quando à frente da grife Yves Saint Laurent aos da marca própria. Mas com fragilidade, delicadeza e dor.

 As relações marginais à grande decisão que gira em torno da morte (primeiro à de seu namorado, à sua revelia, depois a escolhida como que numa condenação inevitável, talvez uma vingança contra a imprevisibilidade da vida) acabam se revelando definidoras. Primeiro a amizade com Charley (vivida por Julianne Moore), uma beldade em crise de meia idade, depois (e principalmente), as conversas e encontros com o aluno Kenny (Nicholas Hoult). Em ambos os casos, vale mais o que está insinuado do que dado, e nem tudo precisa ser consumado para ter poder transformador. 

Quando os detalhes, se não têm seu momento de protagonistas, são pelo menos indispensáveis como acessórios diferenciais, vale citar a moda: a barra curta da calça de George, no estilo italiano milanês, a gravata fina ou a preferência pelo nó windsor na gravata que faria parte do traje de seu enterro ajudam a compor a personalidade, a construir a imagem de quem era ou se esforçava por ser o professor gay que Tom Ford adaptou do livro homônimo (“A Single Man”) de Christopher Isherwood, escrito em 1964. Os penteados das mulheres do elenco, a maquiagem dos olhos da personagem de Julianne Moore, que ocupa uma tarde inteira de tédio para ser finalizada, o tom turquesa que tinge o aparelho telefônico de Charley (Julianne Moore) e o vestido da garotinha vizinha de George (Colin Firth), as sobrancelhas grossas do protagonista e do garoto de programa espanhol (vivido pelo modelo Jon Kortajarena). Nada, em tese, importante. Mas essencial para dar cor à vida.

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