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12/03/2010 - 12h08

"Não se fazem mais filmes como 'Ilha do Medo' hoje em dia", diz Martin Scorsese

ALESSANDRO GIANNINI
Editor de UOL Cinema
  • Martin Scorsese conversa com Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo no set de Ilha do Medo

    Martin Scorsese conversa com Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo no set de "Ilha do Medo"

 Mark Ruffalo conta que quando foi convidado a fazer "Ilha do Medo" sob a direção de Martin Scorsese, a responsável pelo elenco lhe disse que ele tinha apenas 20 minutos para resolver se aceitaria ou não. "Ela falou ainda que havia uma lista enorme de atores com Oscar na estante que queriam o papel", disse o ator americano em entrevista a um grupo de jornalistas estrangeiros do qual o UOL fez parte, durante o Festival de Berlim, em meados de fevereiro, na Alemanha. "Não pensei duas vezes." 

Ao lado de Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley e Michelle Williams, Ruffalo fez parte do elenco de estrelas montado por Scorsese para adaptar o livro "Ilha do Medo" (originalmente publicado no brasil com o título "Paciente 67"), de Dennis Lehane, para o cinema. Foi em cima dessa combinação "cineasta respeitado-astros" que a Paramount trabalhou na promoção do filme, um thriller de suspense com ingredientes de terror em que dois investigadores (DiCaprio e Ruffalo) tentam descobrir o que levou ao desaparecimento de um paciente em um hospital psiquiátrico nos anos 50.

Na ocasião em que o Scorsese e parte do elenco receberam jornalistas de várias partes do mundo para falar do filme, durante a Berlinale 2010, alguém lembrou ao diretor que o primeiro trailer de "Ilha do Medo" parecia apontar para outra direção. E ele concordou, dizendo que se tratava de um teste para medir a receptividade da mídia e do público.

"O negócio mudou muito, a Paramount tem um grande investimento no filme, e vai fazer o que for necessário para levar as pessoas ao cinema", explicou Scorsese. "Eles fazem pesquisas a todo momento e, quando percebem que o interesse caiu, o pessoal do marketing monta outro ‘trailer', está constantemente tentando maximizar a exposição. Por isso, aliás, eles quiseram lançar o filme agora [a estreia estava prevista para o segundo semestre]. Têm um investimento para recuperar."

Feito no calor da hora e com muitos problemas de produção, "Ilha do Medo" foi o projeto que susbtituiu "The Wolf of Wall Street", que Scorsese faria anteriormente com DiCaprio, abortado depois de meses de preparação. "O estúdio não conseguia decidir se ia adiante ou não com o projeto", disse Scorsese. "Esse filme me custou cinco meses da minha vida criativa, perdidos à espera do estúdio, e depois compreendi que não podia esperar mais. Tinha de trabalhar."

O que atraiu Scorsese no romance de Dennis Lehane foi a época, o período da Guerra Fria, e a ambientação, um hospital psiquiatrico localizado em uma ilha. "Esse foi o mundo em que cresci, no qual reinavam o medo e paranóia dos anos 1950", disse ele. "Quando eu era pequeno, ia muito ao cinema. Eu tinha dez anos em 1952. E quando íamos ao cinema, íamos assistir a um filme e não um 'filme noir' como fazemos hoje. Não vamos ver um filme específico à procura de um certo estilo..."

Embora admita que o negócio do cinema mudou, Scorsese não esconde o sentimento de que também houve uma mudança de padrão e qualidade nos filmes.  "Hoje em dia, os estúdios gastam tanto dinheiro nestas produções que não podem correr riscos", disse Scorsese. "Eles fazem coisas muito simples, para atrair jovens e crianças. O padrão de qualidade baixou muito, quando era mais elevado, quando não elevadíssimo. Sou de uma época em que era normal filmes como 'Ilha do Medo' para o grande público, com grandes estrelas. Por que não se pode fazer filmes como este hoje para uma audiência global?"

Scorsese, que havia elogiado DiCaprio publicamente na entrevista coletiva de "Ilha do Medo" em Berlim, repetiu o elogio ao seleto grupo de jornalistas que o entrevistaram depois no festival alemão. É o quarto trabalho em parceria da dupla e, ao que tudo indica, não será o último."Ele chegou a uma maturidade que o permite fazer qualquer tipo de trabalho", disse o diretor, que teve entre seus colaboradores frequentes nomes como o do grande Robert DeNiro.

Na mesma tarde, DiCaprio retribuiu os elogios com carinho e com uma espécie de profissão de fé. "Não me cabe a mim dizer se estou no melhor momento da minha carreira", disse o ator. "Nunca tento competir com os meus filmes anteriores, tento apenas ser tão honesto quanto posso, ser verdadeiro para com o personagem. É claro que me sinto mais atraído por histórias emocionais, mais sombrias, com personagens mais angustiadas ou vulneráveis... Mas quero representar uma personagem de modo que emocione o público tanto quanto eu me emocionaria. Há, evidentemente, uma espécie de 'fome' que nunca nos deixa completamente realizados, como se nunca tivéssemos realmente chegado onde queríamos. E não quero realmente sentir que cheguei a algum lugar, porque não me quero sentir satisfeito."

 

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