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08/04/2010 - 07h00

Padilha expõe guerra entre antropólogos por causa dos ianomâmi

MAURICIO STYCER
Crítico do UOL
  • Cena do filme ''Segredos da Tribo'', de José Padilha, que mostra índios ianomâmi

    Cena do filme ''Segredos da Tribo'', de José Padilha, que mostra índios ianomâmi

Visto à distância, o mundo acadêmico pode até passar a impressão de silêncio e paz. Mas esse é um clichê que não resiste à primeira aproximação. A universidade é um campo de batalhas ferozes, disputas acirradas e muita vaidade. O documentário “Segredos da Tribo”, de José Padilha, que abre o festival É Tudo Verdade no Rio de Janeiro, expõe de forma inédita as entranhas deste universo.

O objeto de Padilha são os índios ianomâmi, instalados há alguns milênios em territórios no Brasil e na Venezuela, e os antropólogos que fizeram contato e pesquisas com algumas tribos a partir da década de 60. O diretor de “Ônibus 174” e “Tropa de Elite” reconstitui em detalhes, e de forma didática, o impacto destes trabalhos acadêmicos sobre os índios.

“Segredos da Tribo” expõe tanto os resultados desastrosos que provocaram estas pesquisas realizadas em território venezuelano quanto a brutal troca de ofensas e acusações entre diferentes antropólogos formados pelas melhores universidades do mundo.

  • Divulgação

    Filme de Padilha aborda trabalho de antropólogos em tribo indígena

  • Divulgação

    Cena do documentário "Segredos da Tribo'', que abre o É Tudo Verdade no Rio

Produzido para a BBC inglesa e a HBO americana, o documentário foi exibido originalmente em janeiro deste ano no Festival Sundance, nos EUA, onde causou boa impressão, mas não faturou nenhum prêmio.

O personagem principal de “Segredos da Tribo” é o antropólogo americano Napoleon Chagnon. Ele é autor de um estudo célebre, “Yanomamo: The Fierce People”, publicado na década de 60, no qual defende a tese que os ianomâmi são um “povo feroz”, cujos membros mais bem-sucedidos são justamente aqueles mais violentos.

Polêmico, o argumento de Chagnon foi contestado por um ex-aluno seu, Kenneth Good, que acusou o mestre de ter manipulado dados para chegar à sua conclusão. Chagnon rebate ao ataque com uma pedra no telhado de Good. Durante sua pesquisa, o rival apaixonou-se por uma índia de 13 anos e a levou para os Estados Unidos. Casou-se e teve três filhos com ela, mas até hoje precisa explicar a sua conduta.

A guerra entre antropólogos esquenta ainda mais com a entrada em cena do francês Jacques Lizot. Aluno de Claude Levi-Strauss, o antropólogo pesquisou as diferentes línguas faladas pelos ianomâmi. Não apenas o seu trabalho científico é contestado por rivais, como seu “método” provoca estupor. Lizot é acusado por diferentes pesquisadores, e também por índios entrevistados por Padilha, de oferecer presentes a garotos índios em troca de favores sexuais. O antropólogo não quis dar entrevista para o filme.

O quarto foco de polêmicas entre antropólogos abordado em “Segredos da Tribo” é uma pesquisa realizada por Napoleon Chagnon e o médico James Neel em 1968. Os dois são acusados de ter provocado uma epidemia de sarampo entre os ianomâmi, que causou dezenas de mortes.

Formado em ciências sociais, Padilha recupera em seu filme as principais questões levantadas pelo jornalista Patrick Tierney no livro “Trevas no Eldorado”, publicado originalmente em 2000, com edição brasileira da Ediouro. O subtítulo de seu trabalho, fruto de uma década de pesquisa, dá uma ideia de polêmica proposta: “como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia e violentaram a cultura ianomâmi”.

Tierney acusa Chagnon e Neel, que já morreu, de “genocídio” e os compara ao médico nazista Joseph Mengele. Chagnon rebate as acusações, mas, dizendo-se desiludido com a antropologia, aposentou-se. Filmado com muito cuidado por Padilha, “Segredos da Tribo” procura adotar uma posição de neutralidade em meio ao bombardeio, o que não impede o espectador de enxergar os muito estilhaços desse impressionante confronto.
 

É TUDO VERDADE - 15º FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIOS
Quando: São Paulo - de oito a 18 de abril; Rio de Janeiro, de nove a 18 de abril
Quanto: entrada gratuita
Informações e programação no site oficial

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