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12/04/2010 - 07h01

Sérgio Machado transforma obra de Jorge Amado em seu filme mais pessoal

ALYSSON OLIVEIRA
Especial para o UOL, do Cineweb

Quando perguntam ao cineasta baiano Sérgio Machado porque ele resolveu adaptar para o cinema a novela de Jorge Amado “A morte e a morte de Quincas Berro d’Água”, de 1961, ele responde certeiro. “Porque é, para mim, é a obra-prima do escritor e o meu livro favorito”, disse ao UOL Cinema, enquanto finalizava seu filme, que tem previsão de estreia para 14 de maio.

Enquanto fazia o filme, que ganhou como título apenas o nome do personagem, “Quincas Berro D’Água”, o cineasta percebeu que este estava se transformando na sua obra mais pessoal – muito mais do que sua ficção anterior, “Cidade Baixa” (2005), que era um roteiro escrito por ele e Karim Aïnouz (“O Céu de Suely”). “O meu cinema é parente da literatura do Jorge. Além disso, conheço de perto aquela Salvador onde se passa a história, aquele tipo de pessoa”.

ASSISTA A TRECHO DO FILME "QUINCAS BERRO D'ÁGUA"

Apesar de sua grande ligação com o trabalho de Jorge Amado, Machado se apressa em ressaltar que essa não é uma adaptação fiel ao livro, mas, sim ao espírito da obra. “O que o longa e a novela trazem é a idea de que o amor, o afeto podem ser responsáveis pela redenção. Isso, a meu ver, permeia toda a literatura do Jorge e tento levar para os meus filmes também”.

Não é por acaso que o cinema de Machado é próximo da literatura do escritor, que morreu em 2001. Quando era estudante na faculdade de comunicação, ele fez um média chamado “Troca de Cabeças” (1993), que foi o último trabalho do ator Grande Otelo, morto no ano em que o filme ficou pronto. “O Jorge viu o filme, e gostou tanto que resolveu me ajudar. Eu não o conhecia. Ficamos amigos, eu passei a frequentar a casa dele.” O escritor mandou uma fita com o média para o diretor e produtor Walter Salles (“Linha de Passe”). O resultado foi uma parceria entre Machado e o diretor de “Central do Brasil”.

  • AFP/Arquivo

    Sérgio Machado, diretor de "Quincas Berro d'Água"

A parceria rendeu frutos como “Abril despedaçado” – do qual Machado foi diretor-assistente e corroteirista – e Salles produziu todos os longas do diretor, que também inclui o documentário “Onde a Terra acaba” (2001), sobre o cineasta Mario Peixoto (“Limite”). “Devo tanto ao Jorge que dei ao meu filho o nome dele”, assinala.

Em “Quincas Berro d’Água”, o veterano Paulo José faz o papel-título, de um morto que não tem seu merecido descanso, pois seus amigos boêmios decidem prestar-lhe uma homenagem, promovendo sua última grande noitada. Machado diz que ter o ator veterano, que atuou em filmes como “Macunaíma” (1969), “Juventude” (2008) e “Insolação” (2009), foi um prêmio. “Sempre quis trabalhar com o Paulo. Quem fez a ponte entre nós foi sua mulher [a figurinista Kika Lopes]. Depois pensei, ele era a única pessoa que poderia mesmo fazer o personagem. Afinal, o Quincas é um Macunaíma mais velho”.

O diretor conta também que Paulo recusou dublês e até mesmo o boneco que havia sido feito para as cenas mais perigosas. “A gente gastou um bom dinheiro para fazer as marionetes e ele não queria usar de jeito nenhum. Ele chegou a ficar pendurado na estátua da Praça Castro Alves e passou diversas horas dentro de um caixão.Agora a gente vai usar os bonecos para divulgar o filme”, diverte-se Machado.

O elenco também traz Marieta Severo (“A dona da história”), no papel da prostituta Manuela, grande amor de Quincas, Mariana Ximenes (“A máquina”), como a filha do morto, além de Luis Miranda (“Jean Charles”), Flávio Bauraqui (“Meu nome não é Johnny”), Irandhir Santos (“Besouro”) e Frank Menezes (“A Pedra do Reino”) como os amigos boêmios do protagonista.

Ao longo de sua carreira, Machado tornou-se conhecido como um cineasta de filmes autorais, mas ele diz que em seu novo projeto, apesar de mais popular, ele manteve a mesma atitude. “Esse é o meu filme com maior orçamento, maior lançamento e mais personagens, e, curiosamente, acho que é o meu trabalho mais pessoal – até mais do que “Cidade Baixa”. No fundo, os filmes falam da mesma coisa, mas de formas diferentes”.

ASSISTA AO TRAILER DO FILME "QUINCAS BERRO D'ÁGUA"

O diretor também vê boas oportunidades para o filme no mercado estrangeiro. O longa é uma coprodução entre Brasil e França e, segundo Machado, os europeus estão bastante otimistas com as possibilidades do filme. “Estamos tentando exibir no Festival de Cannes [que acontece em maio] ou Veneza [setembro]. Além disso, já temos um distribuidor na França. Eles viram uma cópia não finalizada e gostaram muito”.

Rodado completamente em Salvador, “Quincas Berro d’Água” trouxe alguns desafios logísticos para o diretor. Para uma sequência climática, ele precisou construir a réplica de um barco em tamanho real e combinar cenas rodadas com computação em 3D. “Eu também fiz muito storyboard no computador antes de rodar cada cena. Aliás, peguei tanto gosto animação que meu próximo filme deve ser assim”, adianta.

Atualmente, Machado filma em São Paulo a série “Alice”, do canal HBO, e trabalha na adaptação de “A Arca de Noé” de Vinicius de Moraes, que ele pretende levar ao cinema no formato de animação. “A possibilidade de trabalhar no computador faz a gente perder os limites. Acho isso muito bacana, dá pra deixar a imaginação bem solta”.

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