UOL Entretenimento Cinema
 
27/04/2010 - 14h27

"Fiz minha comédia do poder", diz Guel Arraes sobre "O Bem Amado"

THIAGO STIVALETTI
Colaboração para o UOL, do Recife
  • Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) cumprimenta as irmãs Cajazeiras (Zezé Polessa, Andrea Beltrão e Drica Moraes) em cena do filme ''O Bem Amado''

    Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) cumprimenta as irmãs Cajazeiras (Zezé Polessa, Andrea Beltrão e Drica Moraes) em cena do filme ''O Bem Amado''

Diretor de grandes sucessos como “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”, Guel Arraes apresentou ontem na abertura do Festival Cine PE, no Recife, sua versão para cinema de “O Bem Amado”, de Dias Gomes.

Em tom de farsa acelerada e acentuada, Guel faz rir com a volta dos personagens que fizeram muito sucesso na novela da Globo de 1973, a primeira em cores da TV brasileira, e depois seriado nos anos 80. Odorico Paraguaçu, o prefeito corrupto de Sucupira imortalizado por Paulo Gracindo, volta na pele de Marco Nanini. O assessor pateta Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) é ressuscitado sem o mesmo brilho por Matheus Nachtergaele. Zeca Diabo (Lima Duarte) agora é vivido por um excelente José Wilker. As novas irmãs Cajazeiras, as solteironas que perseguem o prefeito, são Zezé Polessa, Andréa Beltrão e Drica Moraes.

Guel (que não acompanhou a novela) segue a mesma fórmula de “Auto” e “Lisbela”, com um ritmo frenético que não deixa tempo pra respirar, amparado por um ótimo elenco global. Mas acrescenta um toque pessoal, uma ligação entre o destino de Sucupira e do Brasil, que começa com a renúncia de Jânio, a posse de João Goulart e o golpe militar e termina com um desajeitado comentário sobre o fim da ditadura e o movimento das Diretas Já.

TRECHO DE ''O BEM AMADO''

“Quis fazer uma comédia do poder, uma sátira da elite econômica e social brasileira. Odorico é um personagem exacerbado, excessivo, barroco”, disse o diretor, em entrevista exclusiva ao UOL Cinema. “Mas o filme precisava de uma visão crítica, não podia só chutar o cachorro morto da direita com esse coronel corrupto. Era preciso também evidenciar o problema da esquerda hoje. Nos anos 60, a vida do intelectual de esquerda era fácil, era só esculhambar a direita. Hoje ela está no poder, não é mais a coitadinha, está na roda pra apanhar também”. O cineasta é filho de Miguel Arraes, que foi governador de Pernambuco pelo PMDB e morreu em 2005.

Para ilustrar esses impasses da esquerda hoje, Guel criou o personagem do jornalista e político de esquerda Vladimir (Tonico Pereira), que edita um jornal de oposição em Sucupira e diz frases como “A gente sabe do que o povo precisa, mas o próprio povo ainda não sabe disso”. Um repórter de esquerda mais jovem, Neco (Caio Blat), que tem pouca importância no texto original, narra a história do filme.

Para Guel, quando os brasileiros reclamam que os políticos não prestam, já estão demonstrando seu interesse em política. “Um filme como ‘Lula, o Filho do Brasil’ pode não ter ido bem na bilheteria por afastar os próprios militantes do PT, que esperavam um filme sobre a trajetória política do Lula em vez de um drama sobre os primeiros anos dele”.

O filme estreia nos cinemas no dia 23 de julho. Em 2011, será exibido na Globo como uma minissérie em quatro capítulos.

 Nanini longe da política

Marco Nanini também negou ter se inspirado em Paulo Gracindo para o filme. Ele já havia interpretado Odorico Paraguaçu no teatro há alguns anos. “O personagem pairou sobre mim durante muito tempo, até que decidi tirar esse fantasma da cabeça. Eu precisei manter um verniz contemporâneo para o personagem, mas adicionando o tom de farsa adequado para o cinema. Quanto à política, prefiro ficar longe, não compreendo muito bem”, declarou.

José Wilker também disse que não acompanhou a novela, mas teve um encontro com Lima Duarte, que viveu Zeca Diabo na novela, antes das gravações do filme. “Ele me mostrou uma foto com todo o elenco do seriado numa pizzaria em Roma, quando foram gravar lá. Me contou histórias de como todos gostavam uns dos outros durante as gravações. Mas isso não importou muito. O que me alimenta é o que está escrito no roteiro e o que o diretor quer”, disse.

Recife Frio

Numa primeira noite de ótimos curtas metragens em digital e película 35 mm, o destaque foi o pernambucano “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho. Vencedor de quatro prêmios no último Festival de Brasília, o filme fez sua primeira sessão oficial “em casa” e recebeu a maior leva de aplausos e ovações da noite.

O filme imagina um futuro próximo onde a capital pernambucana foi atingida por uma frente fria brusca e permanente que bagunça toda a vida da cidade. Ninguém mais vai à praia, todos andam de casaco grosso; as baleias e golfinhos desaparecem e uma leva de pinguins invade a costa; os apartamentos à beira da praia Boa Viagem se desvalorizam, o filho do patrão troca de quarto com a empregada porque o dela é mais quente; um francês que abriu uma pousada para gringos se vê à beira da falência e é obrigado a abrir um site no estilo “adote um pinguim por um euro”.

Nesse futuro hipotético, as pessoas acabam de refugiando nos shoppings – mas esta, por ironia, é a única cena “real” do filme. Com um humor afiado, o diretor mostra que infelizmente as pessoas não precisam do frio para se isolarem e se alienarem cada vez mais. É o curta mais bem-sucedido de Kleber Mendonça, curta-metragista de longa data que rodará em julho seu primeiro longa, “O Som ao Redor”.


 

Compartilhe:

    Siga UOL Cinema

    Sites e Revistas

    Arquivo

    Hospedagem: UOL Host