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29/04/2010 - 14h48

Oswaldo Montenegro estreia como cineasta em filme inspirado em sua juventude

THIAGO STIVALETTI
Colaboração para o UOL, do Recife
  • Cena de ''Léo e Bia'', filme dirigido por Oswaldo Montenegro

    Cena de ''Léo e Bia'', filme dirigido por Oswaldo Montenegro

“Eu amaaaaava como amaaaava algum cantor...”. Quem tem 30 anos ou mais se lembra da música-tema que embalava o amor entre o bóia-fria Sassá Mutema (Lima Duarte) e a professorinha Clotilde (Maitê Proença) na novela “O Salvador da Pátria”, de 1989. Oswaldo Montenegro, autor da música que mantém milhares de fãs pelo Brasil, ressurgiu ontem como cineasta para apresentar no festival Cine PE o seu primeiro longa, “Léo e Bia”.

O filme conseguiu quebrar o preconceito de uma parte dos jornalistas do festival contra Montenegro. Inspirado em uma de suas próprias canções e em sua juventude como diretor de um grupo de teatro em Brasília no auge da ditadura nos anos 70, “Léo e Bia” concentra toda a sua ação em um palco, com personagens falando palavras de ordem, uma ciranda de amores e uma relação asfixiante entre mãe e filha, tudo embalado por uma montagem ágil e criativa. A ótima Paloma Duarte, ex-mulher de Montenegro, e Françoise Fourton encabeçam o elenco.

Na coletiva de imprensa, Oswaldo também mostrou ser um sujeito bastante realista, contrariando as previsões de um sujeito ripongo e fora do chão. “Não tenho problema em assumir que, na época, eu era um burguês que fazia parte de uma esquerda festiva e desinformada. A gente tinha a ilusão de que poderia resolver todos os problemas do mundo em um bar; dependendo da caipiroska, dava pra salvar todo o universo”, brincou.

A revisão um pouco amarga do passado, no entanto, não impede Montenegro de manter uma visão sonhadora do mundo – visão que contagia o filme. Ele enfileirou uma série de frases inspiradoras sobre sua visão do mundo hoje. “Tenho apreço por uma época (os anos 70) em que as pessoas achavam que sonhar valia a pena. Não gosto dos anos 80, quando a individualidade passou a ser chique. Não acho que o pessimismo europeu que idolatramos até hoje seja sinônimo de sabedoria. O projeto coletivo é algo que sempre dá certo, não tem nada de ingênuo. Mas ao contrário, o que vejo por aí são pessoas infelizes, tomadas por uma solidão afetiva e ideológica”.

“Léo e Bia”, que custou menos de R$ 300 mil e foi bancado com a renda de shows promovidos por Oswaldo Montenegro, conseguiu uma distribuidora e será lançado nos cinemas, mas a data ainda não foi definida.

 Indústria do sequestro

O filme de Montenegro foi um refresco para uma noite que começou violenta no festival. Antes dele, foi exibido o curta “A Noite por Testemunha”, de Bruno Torres, ficção que relembra com forte dramaticidade o episódio do índio pataxó confundido com um mendigo e queimado por uma turma de jovens em Brasília em 1997; e o documentário “Sequestro”, de Wolney Attala, uma impressionante investigação sobre a indústria do sequestro e a ação da DAS (Divisão Anti-Sequestro) de São Paulo.

Attala foi muito criticado pela imprensa do festival por simplificar as causas do aumento de sequestros em São Paulo – de quatro em 1989, chegaram a 363 em 2001. Segundo o filme, a principal razão desse crescimento foi o encarceramento em celas comuns dos membros de organizações de esquerda responsáveis por sequestros memoráveis como os do publicitário Washington Olivetto em 2001 e do empresário Abílio Diniz em 1989. Segundo Attala, esses militantes acabaram ensinando nas prisões as técnicas de sequestro aos presos comuns. É uma das causas do problema, mas não deveria ser tomada como “a” grande causa, como mostra o filme.

 No entanto, Attala realizou um filme corajoso sobre um assunto que estava pedindo há tempos por um grande documentário. Seu trabalho de quatro anos acompanhando os oficiais do DAS é louvável – o diretor estourou vários cativeiros com a polícia e começou a tomar remédios pra dormir por conta da tensão nas filmagens. “Sequestro”, o filme, segue a escola americana e constrói um thriller em cima de cenas reais e depoimentos emocionados das vítimas, privilegiando a emoção em vez da reflexão, mas também se esforça em não cair num sensacionalismo barato. É difícil condenar essa postura, já que o filme prende o espectador do começo ao fim e certamente vai conquistar a empatia do público.

“Sequestro” já tem distribuidora e deve estrear depois da Copa, mas Attala, que acabou de ser premiado em um festival de cinema de Los Angeles, sonha mais alto. Membros da Academia de Hollywood que viram o filme no festival o encorajaram a inscrever seu filme na luta pelo Oscar de documentário no ano que vem.

O repórter viajou a convite da organização do Cine PE
 

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