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23/05/2010 - 07h03

"O mundo está cada vez mais feio", diz Antonio Abujamra

ALYSSON OLIVEIRA
Especial para o UOL, do Cineweb
  • Antonio Abujamra em cena do filme Solo, do diretor Ugo Giorgetti

    Antonio Abujamra em cena do filme "Solo", do diretor Ugo Giorgetti

O ator, diretor, entrevistador e, acima de tudo, provocador profissional Antonio Abujamra não é um homem de meias-palavras. Isso é bem sabido. E quando começa a entrevista por telefone com o UOL Cinema deixa logo claro: “Fala mais alto, eu não ouço direito. Estou velho e decrépito”. Se é brincadeira ou não, pouco importa. A verdade é que em pouco mais de 15 minutos de conversa, Abu, como é mais conhecido, faz questão de frisar: “O mundo está cada vez mais feio”.

Com quase 78 anos, Abujamra é conhecido tanto pela sua perspicácia quanto pelo mau humor, ou talvez, um sarcasmo e acidez disfarçados de carranca. Ele conta que quando foi convidado por Ugo Giorgetti (“Boleiros”) para fazer um monólogo no cinema, “Solo”, disse que não iria aceitar, apesar da amizade de longa data com o diretor, com quem trabalhou em “Festa” (1989). “Você quer acabar com a minha carreira, eu disse para o Ugo. Nem Laurence Olivier aguentava um monólogo no cinema”. Claro que a frase, no original, foi complementada por verbos e substantivos impublicáveis, mas facilmente imagináveis.

ASSISTA AO TRAILER DE "SOLO"

Em “Solo”, Abujamra é a única pessoa em cena, em pouco mais de uma hora de filme. Nas suas falas, destila os seus comentários sobre o estado das coisas. Embora pelo tom do texto e das confissões seja difícil de acreditar, o roteiro é unicamente de Giorgetti, que, segundo o ator, não o deixou mexer em uma única palavra. “Ele se acha um grande escritor”, ironiza. Mas, quando perguntado se não compartilha da descrença do personagem, o ator não pensa duas vezes: “A esperança e o sonho não devem passar de uma noite”.

Aliás, Abujamra logo emenda que foi o sonho que deixou a América Latina “no estado em que está”, para usar um eufemismo no lugar do verbo empregado na frase original pelo ator, mas, novamente, impublicável. “O governo nunca valorizou a inteligência no nosso país. O estado do Brasil é resultado da estupidez dos governantes, dos arquitetos, dos intelectuais, dos jornalistas... de todo mundo. É a nossa estupidez”.

O solo na tela parece também funcionar como uma metáfora para aquilo que Abujamra espera da vida. “Tenho uma visão muito crítica do mundo. É uma solidão por opção mesmo. O mundo está cada vez mais feio”, repete. Quando fala do filme, ele conta que, entre seis e oito dias, foram gravadas cercas de 100 horas de material bruto, que Giorgetti montou com Marc De Rossi. E parece torcer para que seu mau humor, seus comentários ácidos sobre o mundo, a idade, o Brasil incomodem as pessoas. “Durante 15 minutos o público vai se interessar. Podem até rir um pouco. Mas depois vão acabar se entediando. Alguns talvez até saiam do cinema”.

Dez minutos de entrevista e ele já quer desligar. Tentando encerrar, solta um verso do poeta francês Paul Valéry: “’Os acontecimentos me enojam’. É exatamente isso que eu penso. Anotou? É do Paul Valéry”, se certifica depois de citar a frase mais de uma vez. Frase anotada, e mais perguntas pela frente. Ele só se anima a responder com a promessa de que é a última: Ravengar, seu personagem da novela “Que Rei Sou Eu?” (1989), ainda é o mais famoso de sua carreira? “Sim, até hoje as pessoas se lembram dele, e me param na rua para falar comigo como se fosse ele”.

Quando perguntando, então, se acredita que a novela, naquela época, retratou tão bem o momento político do Brasil, Abujamra, do alto de seu divertido mau humor, dispara: “Você tinha dito que aquela era a última pergunta, e agora já está fazendo a terceira. Ah, muito obrigado. Abraços”. E desliga.

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