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22/07/2010 - 17h11

"Agora, nós temos o nosso Spike Lee", diz Jonathan Haagensen sobre Jefferson Dê, diretor de "Bróder!"

ALYSSON OLIVEIRA
Especial para o UOL, do Cineweb, de Paulínia
  • Cena do filme Bróder!, de Jefferson Dê, um dos filmes mais bem recebidos do festival

    Cena do filme "Bróder!", de Jefferson Dê, um dos filmes mais bem recebidos do festival

“A gente começou a década com ‘Cidade de Deus’ e agora a termina com os negros indo para trás da câmera. Paulínia está mostrando isso”, comemora o cineasta Jefferson Dê, diretor de “Bróder!”, que foi exibido na última noite de competição no III Paulínia Festival de Cinema, nesta quarta (21).

ASSISTA ENTREVISTA COM O DIRETOR DE "BRÓDER!"

Caio Blat, Jonathan Haagensen e Silvio Guindane são os protagonistas do filme que marca a direção do premiado curtametragista em longas. Exibido no Festival de Berlim, em fevereiro passado, e, no próximo mês, como filme de abertura do Festival de Gramado, o longa, como Jefferson explica, é a evolução natural de sua carreira, que inclui o curta premiado “Carolina” (2003). Como bem define o corroteirista e atual secretário do Audiovisual Newton Cannito, o diretor tinha ideia clara do que faria desde o começo. “O cinema dele é muito provocador. Em ‘Bróder!’, os personagens não se transformam, eles vão se revelando”, assinala.

“Bróder!” se passa no Capão Redondo, periferia sul da cidade de São Paulo, onde os três personagens se reencontram, por ocasião do aniversário daquele interpretado por Blat – um rapaz branco que "se acha negro", nas palavras do diretor. “Em várias favelas e periferias, meninos de classe média, de colégios particulares agem como ele. Eu quis evitar o óbvio. Gostaria que esse personagem gerasse discussão sobre a questão do negro e do preconceito no Brasil”, explica o diretor. Guindane contou que os atores passaram um tempo convivendo na região, conhecendo os moradores. “A gente se tornou Capão Redondo para fazer o filme”, declara o ator.

Jefferson é um dos fundadores do movimento Dogma Feijoada, no final dos anos de 1990 – uma versão brasileira do dinamarquês Dogma 95. “Nesses dez anos, houve muito pouca reflexão sobre a presença do negro no cinema brasileiro. Especialmente atrás das câmeras”. Para provar isso, o diretor lembra que nos últimos anos apenas Joel Zito Araújo conseguiu levar um filme dirigido e protagonizado por negros para o circuito comercial - “Filhas do Vento”, premiado em Gramado 2004.

Entre as suas influências, Jefferson cita Martin Scorsese, Mathieu Kassovitz e Spike Lee. “Mas, quando comecei a fazer o filme, notei que havia muito do meu grande professor de cinema Carlos Reichenbach, também de Sérgio Bianchi, além de ‘Antônia’ [de Tata Amaral]”. Cannito reforça que Jefferson, como Lee, sabe como provocar e assim, revelar coisas.

“A discussão sobre o negro é muito mais complexa. Quando as pessoas saem da periferia e atravessam a ponte para o centro, é a polícia quem define quem é preto e quem não é”, explica Jefferson, sobre uma questão que está muito bem ilustrada numa cena de seu filme.

Quanto ao lançamento nos cinemas, previsto para acontecer ainda esse ano, ele diz que sabe que não dá para fazer “um filme sobre negros para negros da periferia” com os ingressos caros e as salas de cinema cada vez mais localizadas em regiões nobres . “Mas também sou contra esticar uma lona para o pessoal da favela ver filme. Se eu fiz com bom equipamento e qualidade, quero mostrar em bons cinemas. Gostaria que todos os públicos tivessem acesso. A minha grande revolução foi realizar o filme”.

Material reciclável extraordinário

A periferia também esteve presente no documentário exibido na última noite do festival, “Lixo Extraordinário”, codirigido pela inglesa Lucy Walker, e os brasileiros João Jardim e Karen Harley. Ao centro o badalado artista plástico brasileiro Vik Muniz – que já expôs nos Estados Unidos, Canadá e Japão – e a criação de obras de arte a partir do lixo reciclável no Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.

  • Cena do documentário "Lixo Extraordinário", sobre arte feita com lixo

A direção tripla não foi conjunta, foi ideia do produtor inglês Angus Aynsley. Segundo o próprio Muniz, foi necessária a intervenção dele e dos brasileiros para evitar clichês sobre o Brasil e a representação do brasileiro. “Eu não gosto muito das cenas em que os brasileiros estão falando em inglês, mas a diretora inicial [Lucy], não falava português”. No fim, tanto ele quanto os diretores brasileiros defendem que, para alcançar um público estrangeiro, foi necessário que o filme fosse falado parcialmente em inglês. “Apesar de todos os problemas, o filme existe por causa desse produtor. Ele trabalhou muito para o filme ser feito, mas também atrapalhou muito para não ser feito”, brincou o artista plástico.

Dirigente de uma associação de catadores, Sebastião Carlos dos Santos, mais conhecido como Tião, é uma das figuras centrais do filme. Um quadro baseado numa fotografia na qual ele é modelo foi leiloado em Londres. “Ele [Muniz] não tem qualquer dívida conosco. Ficou uma grande amizade [entre os catadores de materiais recicláveis] e os envolvidos no filme”, afirmou. Todos os prêmios em dinheiro que “Lixo Extraordinário” ganhou foram doados à Associação dos catadores do Jardim Gramacho.

“Lixo extraordinário” foi o longa mais aplaudido nesta edição do festival, o que, em tese, o transforma num forte candidato ao prêmio do público. No entanto, na ficção, a competição chegou ao seu final sem um franco favorito. É possível que os prêmios se dividam entre o coletivo “5X Favela”, “Malu de Bicicleta” e “Bróder!”. Na seleção de documentários, “Uma noite em 67” é o que parece ter mais chances de levar vários prêmios.

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