27/04/2011 - 14h38

Filmes inéditos decepcionam em festival de cinema em Porto Alegre

SÉRGIO ALPENDRE*
Colaboração para o UOL
  • O ator Tavinho Teixeira em cena do filme "Batista Virou Máquina"

    O ator Tavinho Teixeira em cena do filme "Batista Virou Máquina"

A região Nordeste do Brasil tem se notabilizado como o maior celeiro de novos cineastas dos últimos anos. Nos festivais espalhados pelo Brasil, é muito comum vermos longas e curtas nordestinos entre os mais elogiados, e, não raro, entre os premiados.

Os três inéditos do CineEsquemaNovo são de lá. Dois deles, "Baptista Virou Máquina" e "Luzeiro Volante", são da Paraíba, sendo que o segundo uma coprodução cearense. O terceiro inédito, "Álbum de Família", é da Bahia.

Infelizmente, os três deixam a desejar, maculando ligeiramente a fama adquirida nos anos 2000. Pecam pela sede de inovação e pelo esquecimento da tradição cinematográfica em prol de uma discutível renovação de estilo. Renovar não é ruim, mas esquecer a tradição, não sabendo, com isso, que caminho seguir nessa renovação, é extremamente problemático. Não se renova coisa alguma sem se ter uma boa ideia do que já foi feito na arte que se deseja renovar.

"Baptista Virou Máquina", de Carlos Dowling, é o menos equivocado, mas tem um gravíssimo problema que praticamente o destroi. Pensado como um média-metragem que acompanha um disco instrumental de uma banda chamada Burro Morto, foi ampliado para poder concorrer à seleção de longas. Essa ampliação se deu com a incorporação de um curta-metragem que, de comum com o média, só tem o ator.

O curta é desastroso. Construido como um grande plano-sequência (sem cortes) circular e em repetição, tem a imagem suja presente também no outro longa paraibano. Mas briga o tempo todo contra o esteticismo do média, que às vezes até funciona muito bem. É realmente lamentável que um filme seja destruído por uma ideia dessas, que pode parecer bonita, mas na verdade é anti-cinematográfica. Esperemos que não se repita o procedimento, pois dos inéditos, é o que tem melhor direção - ao menos nos momentos em que há, de fato, uma direção.

  • Divulgação

    Cena do filme "Álbum de Família", representante bainano no CineEsquemaNovo

Sobre "Álbum de Família", de Wallace Nogueira, não há muito a dizer, a não ser que a ideia de reencontro familiar já está por demais batida para receber o mesmo tratamento que vem sendo dado a filmes novos em digital que pululam a rodo por aí.

“Luzeiro Volante”, de Tavinho Teixeira, que também faz o papel principal (e é o ator também de “Baptista Virou Máquina”, completando a brodagem paraibana), revela duas coisas.

Primeiramente, constata-se que Tavinho é um mau diretor, não sabendo o que fazer com a câmera e com uma suposta influência de Cassavetes. Por outro lado, ele é bom ator, podendo ser até mais exigido por um cineasta de verdade.

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    O filme "Luzeiro Viajante" tem imagens sujas

Em alguns momentos até consegue um ou outro bom enquadramento. Em outros, a sujeira na imagem sugere uma ligação com o pontilhismo adotado por alguns pintores impressionistas franceses. O problema é nos 80% restantes, em que a câmera fica voando como um pernilongo ao redor dos personagens.

É sempre triste notar que os inéditos de um festival importante como esse ficam muito aquém do desejável. Mas é um efeito colateral da proposta louvável em favor da experimentação e da inexperiência. Falta apenas um traquejo maior da curadoria para acertar esses ponteiros das escolhas de longas e evitar que o público abandone o festival.

* Sérgio Alpendre viajou a Porto Alegre a convite dos organizadores do CineEsquemaNovo.