13/08/2011 - 07h00

Concorrentes brasileiros em Gramado expõem crise da ficção

NEUSA BARBOSA
Do Cineweb, em Gramado

Encerrada a exibição dos sete longas brasileiros concorrentes aos Kikitos em 2011, a conclusão é uma só: a julgar pelos selecionados aqui, pelo menos, a ficção nacional no cinema está em crise. Dos quatro candidatos ficcionais, apenas “Riscado”, do carioca Gustavo Pizzi, tem uma ousadia que deu um pouco mais certo. Mesmo assim, nem tanto.

Foi uma decepção o resultado final de “O País do Desejo”, do premiado Paulo Caldas (“Deserto Feliz”), apesar do esforço do trio principal de atores, Maria Padilha, Gabriel Braga Nunes e Fábio Assunção. O roteiro e as esquisitices ao longo do caminho – como a enfermeira japonesa comedora de hóstias (Juliana Kametani) – sepultaram definitivamente qualquer esperança.

Da mesma forma, os outros dois concorrentes, “O Carteiro”, de Reginaldo Farias (que é uma produção gaúcha filmada no Estado) e “Ponto Final”, de Marcelo Taranto (RJ), tropeçaram em inúmeras inconsistências de roteiro e direção. O que foi de se lamentar especialmente no caso do segundo filme, que reuniu excelentes atores, como Hermínia Guedes, Othon Bastos, Silvio Guindane e Roberto Bontempo e que podem, certamente, serem lembrados para alguma premiação.

  • Reprodução

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Documentários

Os documentários nacionais, no entanto, se deram bem melhor. Na verdade, o filme mais ousado cinematograficamente falando até aqui foi mesmo “As Hiper-mulheres”, uma produção pernambucana, com direção dividida entre Carlos Fausto, Leonardo Sette (do premiado curta “Ocidente”) e Takumã Kuikuro, que resgata um antigo ritual feminino do Alto Xingu e inova ao fugir do registro etnográfico e bom-mocista usualmente visto neste universo.

Já premiado em Paulínia, é competente também “Uma longa viagem”, de Lúcia Murat (RJ), que reconstitui a história da própria diretora e seus dois irmãos mais próximos – especialmente Heitor, que viajou pelo mundo e pelas drogas nos anos 60 e 70. A própria premiação obtida em Paulínia, no entanto, pode prejudicar as chances do documentário ser lembrado para troféus aqui.

Outro documentário, “Olhe para mim de novo”, de Cláudia Priscila e Kiko Goifman (SP), também ousa ao discutir o preconceito contra os diferentes, conduzindo um inusitado road movie pelo Nordeste brasileiro, tendo como guia o transsexual Syllvio Lúccio. O filme despertou polêmica, especialmente por colocações consideradas machistas de Lúccio. Mas seu grande problema, na verdade, foi não conseguir solidificar suficientemente a ligação entre a discriminação ao transsexual e aos outros personagens, como albinos e vítimas da síndrome de Berardinelli.

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Receita de simplicidade

Já entre os filmes estrangeiros, chamou a atenção o sucesso, em vários deles, de uma receita de simplicidade que deu ótimos resultados. Nesta categoria, inserem-se justamente três ficções, o concorrente argentino “Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual”, de GustavoTaretto; o mexicano “A Tiro de Piedra”, do estreante Sebastián Hiriart; o chileno “La Lección de Pintura”, de Pablo Perelman; o colombiano (em coprodução brasileira) “Garcia”, de outro estreante, Jose Luis Rugeles.

Igualmente simples e comovente foi o documentário uruguaio “El Casamiento”, de Aldo Garay, contando a história de amor entre um pedreiro e um ex-garçom, este último, o segundo transsexual a fazer operação de mudança de sexo naquele país. Outro trabalho de estreante, da peruana Rosário Garcia Montero, “Las Malas Intenciones”, porém, foi mais irregular ao querer inserir o contexto político de aparecimento da guerrilha do Sendero Luminoso no cotidiano de uma meninazinha burguesa e mimada (Fátima Buntix).

Não parece exagero apostar que poderiam vencer o prêmio de melhor ator qualquer um dos protagonistas do filme argentino (Javier Drolas), do mexicano (Gabino Rodriguez, premiado aqui no ano passado com “Perpetuum Móbile”) ou do chileno (o ator mexicano Daniel Giménez Cacho).

Entre as atrizes, as apostas se dividem entre duas espanholas, Pilar López de Ayala (do argentino “Medianeras...”) e Verônica Sánchez (do chileno “La Lección de Pintura”).

A premiação de Gramado acontecerá nesta noite de sábado, a partir das 21h, com transmissão pelo Canal Brasil.