28/08/2011 - 07h00

Coleção oferece sete grandes filmes de Kubrick em alta qualidade

SÉRGIO ALPENDRE
Colaboração para o UOL

Num momento em que a excelência do cinema de Stanley Kubrick é cada vez mais questionada por novos críticos e cinéfilos, a Warner lança uma coleção contendo sete filmes do diretor, espalhados por oito discos de Blu-Ray. É uma ótima oportunidade para rever ou conhecer sua trajetória após "Spartacus" (1960), o épico de produção conturbada, mas que o tornou reconhecido em Hollywood, possibilitando que seus filmes seguintes ficassem entre os mais esperados pelo público.

Podemos perceber, com tal coleção, a evolução de seu estilo num período de 37 anos. De 1962 a 1999, de "Lolita" a "De Olhos Bem Fechados", são filmes realizados dentro da MGM (até 1968) ou Warner (de 1971 em diante), faltando apenas "Doutor Fantástico" (1964), produzido pela Columbia (agora Sony).

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    Autorretrato do diretor Stanley Kubrick (1928-1999)

É uma carreira bissexta, mas iluminada. Vemos um crescimento de seu perfeccionismo, o que lhe custou uma série de dissabores na indústria cinematográfica, e a dificuldade de trabalhar nos EUA, cujos grandes estúdios cada vez mais ficaram entregues a plateias adolescentes. Kubrick nunca filmou para adolescentes. Seus filmes são adultos, para pessoas que não têm preguiça de pensar. Daí vem a força de sua produção, dentro ou fora dos EUA.

Numa época em que 90% dos cineastas revelam desprezo pelos aspectos formais de uma obra de arte, subestimando elementos como composição de espaço, enquadramentos e posições de câmera, em que a maior parte do cinema contemporâneo é limitada pelo "o que der deu" da estética atual, vale a pena voltar a seus filmes metódicos, extremamente rigorosos, mas nunca assépticos.

A coleção da Warner começa com o polêmico "Lolita" (1962), filme baseado em clássico de Vladimir Nabokov. Peter Sellers e James Mason brilham, sem ofuscar o carisma da ninfeta Sue Lyon. Kubrick, já naquela época, revelava em sua versão um olhar agudo e transgressor. A refilmagem, feita por Adrian Lynne em 1994, é um acinte, mesmo sendo das obras mais interessantes (ou menos problemáticas) do diretor de "Flashdance". Perderam-se as nuances e as interessantes entrelinhas do filme original, que é muito mais erótico sem precisar de apelações.

Com "2001 - Uma Odisseia no Espaço" (1968), Kubrick consolidou a conquista do mundo cinematográfico iniciada no início daquela década. Trata-se de uma obra que ultrapassa as barreiras do gênero: é filosófica e questionadora como raras na história do cinema. O DVD não faz justiça à grandeza deste filme feito para ser visto numa tela de proporções igualmente gigantescas. Mas podemos dizer que o Blu-Ray quebra o galho, por sua melhor definição e trabalho de som.

A maior ficção-científica realizada por um estúdio americano tem o ritmo de um filme de arte. É contemplativa, lenta, imponente. É obra de um cineasta maduro, que não recua diante das implicações eruditas possibilitadas pelo conto original de Arthur C. Clarke (que colaborou com o roteiro). Ainda hoje é o filme pelo qual Kubrick é mais lembrado.

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    Cena do filme ''Laranja Mecânica'' (1971)

Durante a década de 1970, morando e filmando na Inglaterra, Kubrick ousou ainda mais, mexendo em temas polêmicos como a violência gratuita ou inovando nas técnicas de filmagem. Começa com "Laranja Mecânica" (1971), versão filmada da distopia literária de Anthony Burgess. O perfeccionismo do diretor já chegava a tal ponto que o próprio livro foi utilizado como roteiro para as filmagens. O resultado foi uma das obras mais instigantes e perturbadoras da época, com uma atuação marcante de Malcolm McDowell.

Na Inglaterra, Kubrick teve certa liberdade para realizar o grandioso "Barry Lyndon" (1975), filme de três horas de duração que promove uma volta ao século 18 com pompa e elegância. O trabalho com a iluminação é revolucionário. Foi feito somente com luz de velas pelo diretor de fotografia John Alcott, com quem Kubrick havia trabalhado em "Laranja Mecânica". A intenção era imitar a iluminação de uma época anterior à invenção da luz elétrica. Tal experimento foi premiado com o Oscar de melhor fotografia em 1976.

"O Iluminado" (1980), o longa seguinte, é a adaptação de uma das obras literárias mais problemáticas (segundo os próprios fãs) de Stephen King. Mas Kubrick ultrapassou com louvor os obstáculos da adaptação para o cinema e realizou um verdadeiro filmaço.

Jack Nicholson está em estado de graça como o escritor que literalmente enlouquece em um hotel que foi abandonado por todos, menos pelos fantasmas. O clima de terror, que atinge níveis exasperantes na segunda metade, é fruto de um mestre do ritmo e da atmosfera, comprovando uma habilidade já evidente desde o início da carreira, e finalmente aperfeiçoada em "2001 - Uma Odisseia no Espaço".

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    Kubrick durante a gravação de "2001: Uma Odisseia no Espaço"

Se os intervalos entre os filmes cresceram consideravelmente nos anos 1970, na década seguinte chegaram a causar o desespero de seus admiradores mais ardorosos. "Nascido para Matar" chega sete anos depois de "O Iluminado". Hiato mais duradouro e sofrido viria depois, já que "De Olhos Bem Abertos" apareceu somente doze anos depois de "Nascido para Matar". É o alto custo pelo perfeccionismo e pela personalidade difícil, que não se curvava diante das exigências dos estúdios ou do mercado.

"Nascido Para Matar", com seus lados A e B, fez parte de uma série de reflexões que Hollywood fez sobre a Guerra do Vietnã ("Platoon", "Hamburger Hill", "Pecados de Guerra", "Bom Dia Vietnã"...), o acontecimento mais traumático do século 20 norte-americano. É o filme mais frágil de Kubrick desde "Spartacus", mas algumas de suas imagens têm força inegável, sobretudo na segunda parte (o lado B), quando o pelotão de soldados deve lidar com um franco atirador escondido nas ruínas.

"De Olhos Bem Fechados", baseado em um livro escandaloso e escrito no começo do século 20 por Arthur Schnitzler, é uma parábola sobre a sexualidade e sobre as tensões de uma relação na sociedade moderna. Mostra o casal (no filme e na vida real) Tom Cruise e Nicole Kidman numa trama de traições, vinganças e pequenas brigas que tomam proporções incontroláveis. É um fechamento mais do que digno para a carreira de Kubrick, um dos poucos cineastas que não se contaminou por modismos ou frivolidades.

BOX STANLEY KUBRICK

Filmes:
"Lolita"
"2011 - Uma Odisseia no Espaço"
"Laranja Mecânica"
"Barry Lyndon"
"O Iluminado"
"Nascido para Matar"
"Olhos bem Fechados"

Idiomas: Inglês, Português e Espanhol

Legandas: Inglês e Português