O diretor William Friedkin posa para fotógrafos em Veneza. Ele está apresentando "Killer Joe" na competição (8/9/2011)

O diretor William Friedkin posa para fotógrafos em Veneza. Ele está apresentando "Killer Joe" na competição (8/9/2011)

08/09/2011 - 12h24

Diretor de "O Exorcista" apresenta novo filme em Veneza e diz que é "história de amor distorcida, como Cinderela"

NEUSA BARBOSA
Do Cineweb, de Veneza

Terceiro candidato norte-americano ao Leão de Ouro em Veneza, o frenético “Killer Joe”, do veterano William Friedkin (“O Exorcista”), de 76 anos, sacudiu o princípio de marasmo que começou a pesar sobre o festival italiano, no mesmo dia em que, do outro lado do mundo, começa um concorrente direto por atrações cinematográficas, o Festival de Toronto.

Contando pela segunda vez com a parceria do dramaturgo e roteirista Tracy Letts – a primeira foi em “Possuídos” (2006) -, Friedkin entregou um drama possante, repleto de violência e humor negro, em torno de uma família disfuncional. Nela, dois jovens (Emile Hirsch e Juno Temple) contratam um assassino, o também policial Joe Cooper (Matthew McConaughey, numa interpretação impecável), para matar a mãe deles, que é divorciada do pai (Thomas Haden Church), e os dois receberem um seguro de vida, que estaria em nome da garota.

A coletiva de imprensa foi um verdadeiro show de Friedkin, comportando-se como um verdadeiro entertainer e a todo momento ameaçando cantar. “Vocês têm algum pedido? Posso cantar ‘Volare’, se quiserem”, chegou a dizer, causando gargalhadas gerais.

Mas, se não cantou, o diretor fez piada com tudo, inclusive com o presidente do júri em Veneza este ano, seu colega Darren Aronofky (de “Cisne Negro”). Quando foi indagado sobre quais os cineastas que acompanha e admira, Friedkin começou com Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Alain Resnais, Orson Welles e John Ford. “Assisto aos filmes deles o tempo todo. Sem Fellini e Antonioni, não saberia fazer um filme. Não sou digno de amarrar os seus sapatos, mas eles me inspiraram”.

Friedkin mencionou também Paul Greengrass, Paul Thomas Anderson e os irmãos Coen. “Se eu citar também Aronofsky, será que vai parecer que quero conseguir seu voto?”, brincou.

Tecnologia e arte

Comparando o tempo em que começou a dirigir, na década de 60, com a atualidade, Friedkin comentou: “A tecnologia está tão avançada hoje nos EUA que tudo é possível. As sequências de ação e efeitos especiais hoje são todas feitas no computador, que pode preencher os sonhos de qualquer diretor. Entretanto, só quando alguém fizer, com esta tecnologia, o que Welles fez em ‘Cidadão Kane’ é que realmente se avançará na arte do cinema”.

O veterano diretor, que fez dois filmes apenas nos últimos cinco anos, diz que não gosta muito da maioria dos scripts que lê. “Não vejo muitas histórias que queira filmar. Por isso, prefiro dirigir óperas, como vou fazer agora em outubro, em Florença”.

Um dos poucos a atraí-lo a voltar para trás das câmeras é justamente Tracy Letts, autor da peça que serviu de base a “Killer Joe” e também roteirista do filme. “Vejo o mundo da mesma maneira que Tracy. Ele enxerga as mesmas coisas na natureza e no comportamento humanos”.

"Cinderela"

Quando o criticaram por fazer as coisas de um modo muito explícito neste filme – que tem cenas de grande violência física -, Friedkin discordou. “Não procuro fazer nada mais explícito e sim mais ambíguo. Quando minha mulher me perguntou sobre o que é ‘Killer Joe’, disse-lhe que não tenho a menor ideia. Mas acho que entendo os personagens, que são inusitados e representativos da natureza humana”.

Para o diretor, seu filme é “uma história de amor distorcida, como Cinderela. As mulheres sempre procuram um príncipe encantado, não é? Aqui, Dottie (personagem de Juno Temple) até o encontra, só que ele é um assassino de aluguel. Isto deve acontecer a muitas mulheres”. 

Com a sala inteira de jornalistas ainda gargalhando diante destas colocações, Friedkin comparou a situação à sua própria história amorosa: “Fui casado quatro vezes. Não é algo de que me orgulhe. Mas sempre procurei Cinderela e acabei encontrando assassinas de aluguel”. Mais uma vez, a sala veio abaixo com as risadas.

Friedkin fez questão, no entanto, de excluir a atriz francesa Jeanne Moreau, uma de suas ex-mulheres, desta comparação nada lisonjeira: “Fui casado com ela e somos amigos até hoje, embora eu ainda não entenda que diabos ela queria com alguém como eu”.