14/03/2012 - 13h54

A convite do UOL, ex-editor da 'Mad' comenta 'Guerra É Guerra!', a não-adaptação das tirinhas 'Spy vs. Spy'

Otacílio D'Assunção*
Especial para o UOL, no Rio

Atenção, o cartaz original do filme pode causar confusão. E causou: a convite do UOL, o ex-editor brasileiro da revista "Mad" Otacílio D'Assunção topou conferir em primeira mão a adaptação para o cinema das famosas tirinhas 'Spy vs. Spy', publicadas há décadas na revista. Acomodado na poltrona, pipoca e Coca-Cola nas mãos, foi no melhor estilo dos quadrinhos que Ota recebeu a bomba: apesar do nome - e do slogan em inglês que afirma "It's Spy again Spy" -, o filme "Guerra É Guerra!" é na verdade uma comédia romântica açucarada com toques de ação estrelada pela bonitinha Reese Whiterspoon. E não é que o Ota gostou? Confira abaixo o relato:

 

É bom não fazer confusão: embora a chamada seja "It's Spy Against Spy", este filme não tem nada a ver com aquela dupla de espiões narigudos da revista "Mad", criados no início da década de 1960 e em plena Guerra Fria pelo cartunista Antonio Prohias, que fugiu de Cuba para escapar do "paredón" de Fidel Castro. Esses Spys também vão ter um filme, dirigido por Ron Howard, mas ainda vai sair...

  • Reprodução

    Personagens da tira 'Spy vs. Spy'


O assunto aqui é "Guerra É Guerra!" ("This Means War", no original) é uma comédia romântica dirigida por McG e estrelada por três atores trintões com muitos filmes na bagagem: a legalmente loura Reese Witherspoon, o novo Capitão Kirk de "Star Trek" Chris Pine e Tom Hardy, que vai ser o vlião Bane no próximo filme do Batman.

FDR (Pine) e Tuck (Hardy) são uma dupla de agentes da CIA que se apaixonam perdidamente pela mesma mulher, Lauren (Witherspoon), e passam o filme todo competindo para ver quem fica com ela. Lauren, que até então estava encalhadíssima mas cheia de amor para dar, de uma hora para outra passa a ser cortejada pelos dois, que aproveitam todos os recursos da profissão para levar vantagem sobre ela e um contra o outro. Isso nas horas vagas, porque no horário de trabalho eles estão empenhados em impedir que um terrorista internacional, Heinrich (Til Schweiger) faça seus estragos.

 

  • Ota/UOL

O filme já começa com cenas espetaculares, quando a dupla é enviada a Hong Kong para impedir que Heinrich adquira uma arma de destruição em massa. Devido à lambança e estrago que fazem, a CIA os põe na geladeira (isto é, de castigo no escritório fazendo trabalho burocrático) até que as coisas esfriem, pois Heinrich está atrás deles para vingar a morte do irmão na Operação Hong Kong.

Corta para a vida rotineira de Lauren, uma simples testadora de produtos que já passou dos trinta e está quase ficando pra tia. Para dar uma forcinha, sua melhor amiga, Trish (Chelsea Handler) a inscreve à revelia em um site de relacionamentos.

Tuck, que está de bobeira vadiando na internet vê o perfil da moça e se interessa e corre atrás. Por sua vez, FDR esbarra com ela numa locadora e começa a assediá-la. Não demora muito para que os dois amigos descubram que estão cortejando a mesma moça. Eles fazem um pacto na base do "que vença o melhor" mas usam de todos os truques sujos e suas equipes da CIA como apoio para grampeá-la e conseguir vantagem. Fora todos os truques tradicionais que os homens usam para sensibilizar as mulheres.

E assim vai o filme. Entre uma paquera e sabotagem mútua e outra, algumas eventuais cenas de pancadaria em umas "missõezinhas simples" que aparecem pelo caminho, até o desfecho da história, onde o vilão mostra as garras e os dois deixam a rixa de lado para salvar a mocinha, que a essa altura está perdidamente apaixonada pelos dois e decidindo com qual vai ficar. Ou seja, a mesma história que já foi contada mil vezes, de outros jeitos, com direito a perseguição de carros de lei e final feliz para todo mundo.


Não há nenhuma novidade. Filmes de agentes secretos já teve de monte (e melhores) e comédias românticas são quase sempre a mesma coisa (algumas são melhores). Mas, como toda  história, o que importa não é a originalidade da situação, e sim como ela é contada. Esta tem todos os clichês de sempre até mesmo o clássico "ei, é o papai na TV" quando a bagunça está generalizada e sendo transmitida ao vivo por todos os canais. Evidentemente, como todo filme do gênero, os mocinhos salvam a mocinha e os bandidos são massacrados.

Mas, ao invés de apelar para piadas escatológicas e de mau gosto, como é o padrão (vide "As Branquelas"), McG conduz tudo com classe e elegância, faz referências clássicas (até quadros do pintor Gustav Klimt e cenas de filmes como "Jovem Frankenstein", "Titanic" e "Butch Cassidy" aparecem na TV, pontuando as situações) e consegue tornar essa salada de clichês numa divertida bobagem com direito a passar até na Sessão da Tarde, se eliminarem a única cena "realmente erótica do filme" onde o máximo que se vê é a mocinha de sutiã.

Assista ao trailer legendado


As cenas de ação, explosões e pancadaria são poucas para quem vai achando que é um thriller de espionagem, mas estão no contraponto perfeito com as de comédias românticas, essas sim a verdadeira tônica do filme. Quem quer ver um filme de arte vá ver "O Artista" ou "Meia-Noite em Paris"; quem quer ir só para se divertir pode ver "Guerra É Guerra!" sem medo de levar a família toda: a namorada, a esposa, a sogra, os filhos, o cachorro e até mesmo aquela tia velha que adora Gustav Klimt.

 

Mas ficam algumas reflexões: pelo visto, a CIA tem dinheiro (do contribuinte) sobrando,  já que um andar inteiro do prédio é mobilizado pra ficar grampeando a moça, quase um Big Brother privado só para agentes do governo. E a relação dos dois agentes é meio estranha... no fundo eles amam mesmo é um ao outro. Seria quase um casal gay, se não fossem héteros. Antes disso só vi uma cena parecida: Batman e Robin brigando por causa de uma mulher (Hera Venenosa/Uma Thurman) naquele filme de 1997 da fase antiga... Aí tem!


* Otacílio D'Assunção, mais conhecido como Ota, é jornalista e cartunista. Foi editor da versão brasileira da revista de humor americana "Mad" de 1974 a 2008.