Cena do filme "De rouille et d'os", de Jacques Audiard, com Marion Cotillard, em exibição no Festival de Cannes 2012 (2012)

Cena do filme "De rouille et d'os", de Jacques Audiard, com Marion Cotillard, em exibição no Festival de Cannes 2012 (2012)

17/05/2012 - 07h11

França entra forte na competição com drama estrelado por atriz de "Piaf"

Thiago Stivaletti
Do UOL, em Cannes

A França entrou forte na competição pela Palma de Ouro nesta quinta com o drama “De rouille et d’os” (De ferrugem e osso), de Jacques Audiard. Audiard quase levou a Palma em 2009 com “O Profeta”, que ficou com o Grande Prêmio do Júri daquele ano (uma espécie de segundo lugar). O novo filme tem distribuição garantida no Brasil, ainda sem data de estreia.

“De rouille et d’os” acompanha em paralelo dois personagens fortes: Stéphanie (Marion Cotillard, Oscar de melhor atriz por “Piaf”), uma adestradora de orcas num parque aquático que sofre um acidente e fica paraplégica; e Ali (Matthias Schoenaerts, de “Bullhead”), pai solteiro de um menino, que divide seu tempo entre o trabalho de segurança e a luta livre. Ela o contrata para cuidar dela, e aos poucos surge uma relação intensa, feita de poucas palavras.

Como sempre nos filmes de Audiard, os diálogos perdem espaço para cenas de pura força visual, que privilegiam os corpos e seus esforços físicos – ela para voltar a andar com prótese, ele para enfrentar seus lutadores, os dois em cenas de sexo muito bem filmadas. Um filme de corpos, sangue e ossos, como indica o título. O diretor se inspirou num livro de contos do americano Craig Davidson, mas guardou apenas a atmosfera criada pelo escritor, mudando os personagens.

Depois de “O Profeta”, rodado no espaço confinado da cadeia e sem mulheres, Audiard buscou uma história de amor, rodada em grandes espaços e muita luz. “Filmo esses personagens em tempos de crise, quando resta apenas o corpo, a violência, às vezes os órgãos também”, explicou. “Eles sofrem grandes mudanças ao longo do filme. Com o acidente, ela descobre que pode se abandonar e se entregar a outra pessoa. Ele, que tem dificuldade pra se exprimir, aprende a dizer que a ama”.

Atuar sem pernas

Depois de alguns filmes em Hollywood, como “Inimigos Públicos” e “A Origem”, Marion Cotillard volta a filmar na França. Ela aparece sem pernas, graças a efeitos especiais, e teve que aprender a se movimentar sem mexer as pernas para dar veracidade a Stéphanie. Um pouco tímida mas sempre charmosa, ela falou sobre o filme. “É um trabalho de imaginação – eu tinha que imaginar que não tinha pernas. Ela é paraplégica, mas acho que esses personagens não estão longe do nosso cotidiano. Eles vivem numa infeliz realidade como muita gente. Todos temos provas a superar”. Hoje em Cannes, produtores anunciaram que Cotillard vai estrelar o próximo filme do iraniano Asghar Farhadi, diretor do oscarizado “A Separação”. O novo filme, ainda sem título, será rodado em Paris.

O belga Mattias Schoenaerts mergulha com força no papel do brutamontes que aprende aos poucos a valorizar o amor – e não deve demorar a receber convites de Hollywood.  Cotillard ajudou a levantar a bola do colega, comparando-o a Daniel Day Lewis e Leonardo DiCaprio. “Na verdade já me convidaram para fazer Rambo 34. Respondi que só aceito se fizer também o 35 e o 36”, brincou o ator.