07/07/2012 - 07h00

"Coisas Eróticas" marca o princípio do fim das inocentes pornochanchadas

Sérgio Alpendre
Do UOL, em São Paulo

No próximo dia 7 de julho um acontecimento marcante da cinematografia nacional completará 30 anos: a estreia do primeiro filme de sexo explícito brasileiro, "Coisas Eróticas", de Raffaele Rossi.

Não há motivo para comemoração. Com o advento do sexo explícito, o cinema criativo da Boca do Lixo, que apostava na nudez de belas atrizes e em histórias picantes de sexo e traições, mas revelava também uma saudável cinefilia e um agradável frescor estético, chegava ao princípio de seu fim.

Ninguém mais queria ver apenas seios e nádegas em meio a tramas por vezes simplórias, por outras filosóficas. Era necessário algo mais para fazer sucesso nas bilheterias. Por causa dessa necessidade, diretores de talento como Jean Garret, Ody Fraga e Cláudio Cunha viam-se obrigados a tentar algo mais picante.

VEJA REPORTAGEM DA TV UOL SOBRE O FILME

Os filmes de 1983 e 1984 realizados por esses diretores são bons exemplos disso. O sexo já era quase explícito, e as angulações de câmera, muito mais ousadas. Em "Tentação Na Cama" (Ody Fraga, 1984), David Cardoso chega a exibir rapidamente seu membro ereto, e tem nu frontal em diversas cenas.

Mas é um exemplo tímido perto do que já tinha sido feito pelo mesmo ator. Lançado no mesmo ano de "Coisas Eróticas", mas com três meses de antecedência, "As Seis Mulheres de Adão" (David Cardoso, 1982), tem duas cenas de sexo explícito envolvendo o astro-diretor, logo no início do filme. Não há planos muito fechados (assim como não há em "Coisas Eróticas"), mas as cenas são bem nítidas. A invasão do XXX era inevitável naquele momento, e na verdade já estava acontecendo, desde a estreia do filme de Rossi.

Entre 1984 e 1986, a Boca do Lixo era praticamente consumida pela invasão do sexo explícito, e cineastas outrora criativos que exibiam sua cinefilia em longas muito bem dirigidos passaram então a realizar filmes hardcore. Jean Garret fez "Fuk Fuk à Brasileira", "O Beijo da Mulher Piranha" e outros dois pornôs. Ody Fraga fez o sucesso "Senta no Meu Que Eu Entro na Tua". José Mojica Marins fez dois filmes explícitos, um dos quais pensado para fazer o público ter nojo de ver sexo no cinema (estratégia que obviamente fracassou, pois tal filme, "24 Horas de Sexo Explícito", foi um tremendo sucesso). Vários outros diretores entraram na onda do hardcore, a maior parte deles sob pseudônimo. Os que se recusaram a isso, como Carlos Reichenbach, já estavam em outro caminho.

  • Reprodução / Facebook

    Cartaz de divulgação do filme "Coisas Eróticas", o primeiro pornô brasileiro, lançado em 1982.

Cláudio Cunha os superou (assinando com seu nome artístico de sempre) com "Oh Rebuceteio", de 1984, certamente um dos melhores filmes de sexo explícito de todos os tempos. Questionador e transgressivo para muito além do sexo, o filme tinha cenas verdadeiramente afrontosas, que mexiam com o público, como quando Cunha aparece incitando o espectador a gozar junto com os atores (e olhando para a câmera enfaticamente).

Bom trabalho de pesquisa

É interessante, contudo, pensarmos no contexto em que "Coisas Eróticas" estreou e o que representou à época um filme desses, com cenas nunca antes vistas no cinema brasileiro, passando em um cinema tradicional do centro da cidade de São Paulo, o Windsor.

É o que conta o interessante livro "Coisas Eróticas", de Denise Godinho e Hugo Moura. Alternando o relato mais jornalístico com uma espécie de reconstituição dramática daqueles tempos (e da carreira pregressa do diretor do filme, Raffaele Rossi, e de outros envolvidos, bem como de seus destinos), os dois pesquisadores traçam um interessante panorama do cinema paulista de então e da vida social na época.

Em dado momento, detêm-se na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, quando após uma campanha brilhante o Brasil foi eliminado pela seleção italiana, no que ficou conhecido por aqui como "o desastre do Sarriá", numa alusão ao nome do estádio espanhol onde aconteceu a partida. Dois dias depois do desastre, "Coisas Eróticas" estreava e iniciava sua história de censuras e sucessos. O cinema industrial brasileiro começava a ruir, mas ninguém tinha a exata dimensão disso no momento.

"Coisas Eróticas" era um subproduto da Boca que não teria a menor chance de chamar a atenção se não fosse pelas longas cenas de sexo explícito. Começa com uma cena de masturbação do ator Oásis Minniti, que depois encontra a morena que lhe serviu de inspiração no trânsito, ao som de "The Shadow of Your Smile", de Johnny Mandel, música presente também no último grande filme de Vincente Minnelli, "Adeus às Ilusões" (1965). É o começo da primeira das três histórias do longa dirigido por Raffaele Rossi. A sombra do sorriso da morena encontrada na rua é o passaporte para muito sexo, de uma maneira nunca antes vista no cinema brasileiro.

O livro é muito feliz em colocar "Coisas Eróticas" dentro do panorama da época, e de atentar para alguns detalhes da produção que rendem bem, ainda que a escrita seja por vezes limitada pelo tom jornalístico. Um bom exemplo do interesse de tal relato é a hilária história da dublagem, dirigida por Marthus Mathias. Conforme contam Godinho e Moura, "de todos os trabalhos marcados por sua imponente e grossa voz, o que mais se destaca é, sem dúvida, o personagem de Fred Flintstone do desenho animado 'Os Flintstones'. Por essa razão, 'Coisas Eróticas', quando lançado, traria consigo um personagem que faz sexo explícito gemendo com a voz de um ícone infantil que marcou a infância de todos aqueles que iriam assistir à película. Não deixaria nunca de ser engraçado".

Vendo o filme, a cena dos dois homens que se acariciam é engraçadíssima, pois termina com o homem que fala com a voz do Fred dizendo: "er... cuidado com o dedão aí". O riso anula a crítica à homofobia pensada pelo diretor do segundo episódio, Laerte Calicchio, braço direito de Raffaele Rossi, diretor geral.

Extremamente pobre como cinema e como produção, "Coisas Eróticas" parece um triste experimento feito por pessoas pouco talentosas, que por alguma ironia do destino estourou nos cinemas brasileiros.

Está tudo no livro, que relata também como os envolvidos pela produção, em sua grande maioria, não souberam capitalizar em cima do sucesso. Talvez alguns estivessem certos em tratar a vida como um êxtase, outros tivessem suas razões para sentir vergonha do que fizeram. De certa forma, eles anteciparam em alguns anos o colapso do cinema brasileiro do período Collor, e decretaram definitivamente o fim da última bem sucedida tentativa de indústria cinematográfica no Brasil.