Cena de "A Última Estação", de Marcio Curi, que abre o Festival de Cinema de Brasília

Cena de "A Última Estação", de Marcio Curi, que abre o Festival de Cinema de Brasília

18/09/2012 - 02h04

Filme que abre o Festival de Brasília mostra que muçulmanos e cristãos não são tão diferentes

James Cimino
Do UOL, em Brasília

“A Última Estação”, do cineasta Marcio Curi, foi o filme escolhido para abrir a 45ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O longa, que conta a história Tarik (Mounir Maasri), um libanês que veio para o Brasil e não conseguiu cumprir a promessa que fez à sua mãe de voltar à terra natal, foi bastante aplaudido pelo público presente ao Teatro Nacional Cláudio Santoro por mostrar que cristãos e muçulmanos não são tão diferentes assim.

Fugindo da guerra de seu país, o jovem Tarik conhece cinco amigos no navio que o trazia para o Brasil. Cinquenta anos depois, quando o protagonista fica viúvo, ele sai em busca dos patrícios que conheceu no passado e que nunca mais viu desde que seguiram suas vidas após desembarcar no porto de Santos.

O filme percorre várias cidades, como Barretos, Anápolis, Brasília, Ilhéus, Salvador, Belém e Beirute, e mostra como os imigrantes libaneses participaram ativamente da história recente do Brasil. Alguns se tornaram bem-sucedidos, outros nem tanto, e nesse reencontro Tarik acaba resolvendo conflitos que trazia desde que abandonou seu país de origem, especialmente aqueles relacionados aos costumes.

Durante a cerimônia de abertura, o roteirista do filme, Di Moretti, disse: “Esse é um filme que respeita a tradição e a origem de um povo e acho que ele vem em um momento bastante oportuno, em que filmes irresponsáveis têm causado tragédias pelo mundo." Uma clara referência ao filme “A Inocência dos Muçulmanos”, que gerou uma onda de violência e de intolerância religiosa em diversos países.

Namoros escondidos

  • James Cimino/UOL

    Mohamad Rabah e Braheim Abu Nassif, que interpretam os amigos Tarik e Ali em "A Última Estação"

Os atores que interpretam Tarik e seu amigo Ali quando jovens conversaram com a reportagem do UOL após a exibição do longa. Mohamad Rabah e Braheim Abu Nassif são de São Paulo e moram respectivamente em Sapopemba e Guarulhos. O primeiro é libanês e o segundo filho de libaneses.

Eles contam que são muçulmanos e que tentam na medida do possível seguir a tradição de seus pais. No entanto, nem sempre é fácil manter os costumes. Rabah, 18 anos, diz que tudo depende da geração à qual você pertença.

“Eu e minha mãe somos libaneses, então se eu quiser namorar uma menina que não é libanesa ou muçulmana, preciso namorar escondido. E, se eu começo a conversar com uma garota que é muçulmana, minha mãe já fica toda a animada e vai atrás da família da moça e tenta incentivar essa relação.”

“Eu gostaria de passar essa tradição aos meus filhos. Mas, se eu me apaixonar por uma moça que não seja libanesa, vou ter que enfrentar minha família. Isso [ser libanesa ou muçulmana] não será um fator determinante na escolha da minha noiva.”

Abu Nassif, 19 anos, que estuda engenharia e nasceu no Brasil, concorda com o amigo. Quando o assunto é sexo, diz que o cuidado tem que ser redobrado para que os pais não descubram. Segundo ele, nenhum dos amigos descendentes de libaneses de seu circulo de é virgem. Já com as meninas o caso é diferente. Os pais controlam mais. “Embora a televisão e o cinema mostrem que os muçulmanos são machistas, a regra vale para os dois. Tanto o homem quanto a mulher devem se casar virgens. Agora, entre os homens não tem como saber. Apesar disso tudo, eu não quero que a minha noiva seja escolhida pela minha família. Eu quero uma mulher que queira estar comigo por vontade própria e não por imposição. Isso não rola mais.”

Assim como nas famílias cristãs, as famílias muçulmanas modernas ou que imigraram para fora de seus países, também fazem vista grossa para as duas questões abordadas pelos rapazes. Quando questionados se os pais realmente acreditam que eles não namorem ou façam sexo, eles respondem o seguinte: “Ah, na verdade eles muitas vezes fingem não saber, mais ou menos como aqueles pais que têm filhos gays e dizem que nunca perceberam.”