Cena de "Era Uma Vez Eu, Verônica", de Marcelo Gomes

Cena de "Era Uma Vez Eu, Verônica", de Marcelo Gomes

22/09/2012 - 14h20

"'Era uma vez eu, Verônica' é um ''Shame' sem vergonha", diz diretor do filme

James Cimino
Do UOL, em Brasília

Verônica (Hermilla Guedes) é uma médica psiquiatra recém-formada que mora com o pai na praia da Boa Viagem, em Recife. Embora seja realizada profissionalmente e tenha um homem apaixonado por ela, vive uma crise existencial, que se agrava mais ainda quando descobre que seu pai vai morrer. Quando Verônica está em crise, ela descarrega tudo no sexo.

Qualquer semelhança com o personagem de Michael Fassbender em "Shame" (que em inglês significa vergonha) não é mera coincidência, mas tampouco é plágio, apenas o espírito de um tempo.

Teaser de "Era uma vez eu, Verônica"

Indagado sobre essa questão, o diretor do longa-metragem “Era uma vez eu, Verônica”, Marcelo Gomes, dá risada: "A Verônica é um 'Shame' sem vergonha. Quando eu assisti àquele filme, eu gostei até a metade. Mas depois achei o final cheio de culpa e moralista."

A temática da insatisfação da juventude contemporânea que, na visão do diretor, atinge a maturidade profissional sem necessariamente atingir o mesmo patamar no campo emocional, foi fruto de entrevistas que ele fez com mulheres semelhantes a sua personagem durante a pesquisa para o roteiro.

"Durante as entrevistas, me baixou um Eduardo Coutinho e essas mulheres resolveram me contar coisas muito íntimas sobre liberdade, afeto, sexo e realização profissional. Percebi que a urgência na realização em uma sociedade que está predominantemente capitalista e o excesso de opções que essa mesma sociedade oferece está causando esse mal-estar generalizado. Então essa questão foi muito difícil de retratar, porque Verônica é cheia de dúvidas, mas não é politicamente correta.”

As cenas de sexo, ainda de acordo com Gomes, foram gravadas de modo a também mostrar esse aspecto da intimidade da personagem sem filtros, já que, durante a narrativa, Verônica registra suas dúvidas em um gravador, reproduzindo o método das consultas que faz com seus pacientes em um hospital público. "As cenas de sexo foram igualmente íntimas e sem nenhum pudor. E funcionou muito bem porque eu e o João Miguel [ator que interpreta o namorado da personagem] temos uma química em cena, embora seja platônica", frisou Hermilla Guedes.

Dilma e Carnaval
Durante a produção do filme, a equipe de filmagem teve dois grandes desafios. Gravar em um hospital público e reproduzir o Carnaval de Olinda. Após conseguir uma ala de um hospital público de Recife, convidaram atores e pessoas comuns para fazer a figuração. No entanto, a ala que virou set estava ao lado de uma ala em funcionamento. Por isso, volta e meia pacientes de verdade chegavam ao local para serem atendidos.

“Nós começamos a filmar no dia seguinte à vitória da Dilma nas eleições. Aí chegou uma paciente lá e nós informamos que aquela ala tinha mudado para outro lado. Ela nos olhou e disse: ‘Mas a Dilma mal entrou e já mudou tudo?”, conta o diretor aos risos.

Outra cena complicada foi a do Carnaval. Segundo o diretor, a equipe convidou amigos e avisou à população do entorno da locação em Olinda que haveria um mini-folia no dia da filmagem. Segundo ele, o lugar encheu tanto, que a certa altura do processo foi determinado que a banda tocasse ininterruptamente durante as seis horas de gravação, sem pausas para mudanças de câmera e luz. “Foi uma confusão gravar nesse dia, porque teve tudo que tem em um Carnaval, desde mulher brigando com o marido a ladrão roubando celular.”