Philippe Barcinski, diretor de "Entre Vales" e "Não Por Acaso"

Philippe Barcinski, diretor de "Entre Vales" e "Não Por Acaso"

25/09/2012 - 11h00

No Festival do Rio com "Entre Vales", Barcinski busca a relevância no cinema

Beatriz Amendola
Do UOL, em São Paulo

Depois de colocar a sinuca e o trânsito  como cenário para falar de dramas pessoais em “Não Por Acaso“, o diretor Philippe Barcinski mudou o pano de fundo em seu segundo longa-metragem: em “Entre Vales“, é o lixão que dá o tom à jornada do protagonista Vicente, vivido por Ângelo Antonio.

O filme, que abrirá a mostra Première Brasil no Festival do Rio desta sexta-feira (28), acompanha a história de Vicente, um economista bem sucedido, casado e com um filho, vê sua vida ser afetada por várias perdas seguidas. Paralelamente, o espectador também assiste a sua jornada de superação – na qual ele assume outra identidade e passa a usar o nome de Antônio.

O tema de perdas e ganhos e seu cenário estiveram entrelaçados desde a origem do projeto, um documentário que não deu certo. O filme seria rodado no aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, que é o maior da América Latina – e foi lá que Barcinski entrou em contato com o universo das pessoas que vivem e trabalham em lixões e aterros sanitários.

Envolvido com a ideia, o cineasta partiu para fazer pesquisas em cooperativas e aterros de São Paulo, cidade que o impressiona pelo tamanho do universo do lixo. “Em São Paulo, você vê catadores de lixo em qualquer lugar. Essa sociedade paralela é muito grande e é o que mais me chamava a atenção“, diz.

Em suas investigações sobre o mundo dos lixões e dos aterros, Barcinski se deparou com o fio condutor dramático de “Entre Vales“: “Encontrei pessoas que foram para lá porque perderam coisas. E conheci gente que construiu uma vida a partir do nada. Achei interessante como esse universo lida com perdas e reconstruções”.

O diretor então traduziu essa dualidade no modo de contar a história de Vicente, mostrada na tela de forma alternada. “A narrativa é entrecortada. Tem a trajetória dele morro abaixo, perdendo tudo, e uma trajetória morro acima, quando ele reconstrói a vida”, explica, acrescentando que o fato de o protagonista trocar de identidade gera “uma confusão interessante“ no início do filme. 

Primeira escolha de Barcinski para o desafio de representar esses dois momentos de Vicente, Angelo Antonio ficou à altura das expectativas do cineasta. “Pensei nele desde a fase do roteiro. Ele é muito intenso e emocionante no papel. É uma das melhores atuações dele“, elogia.

  • Divulgação

    Cartaz do filme "Entre Vales", estrelado por Angelo Antonio

Relevância cinematográfica

“Entre Vales“ vem cinco anos após “Não Por Acaso“, longa em que estreou na direção. Mas o hiato não foi motivo de preocupação para Philippe Barcinski, que revelou ter usado o tempo para fazer pesquisas intensas e garantir um bom resultado final em seu novo trabalho. “Busco algo que signifique mais do que a imagem. E esse foi o tempo necessário de maturação“, afirma.

Em seu cuidado com a pesquisa, o cineasta mostrou ainda a preocupação de ser relevante em uma época em que os filmes não são vistos apenas nas salas de cinema. “Quando comecei minha vida de cinéfilo, você só via filmes no cinema. E hoje, você assiste em vários lugares. Mas o cinema ainda é o topo da cadeia. Então pra fazer alguém sair de casa, comprar o ingresso e passar a tarde toda fora, tem que ser um filme com relevância, que valha a pena e seja diferente“, reflete.

Atuando no cinema há 26 de seus 40 anos – Barcinski começou sua carreira como assistente de direção aos 14 anos, em “Leila Diniz“ -, o diretor reconhece que atualmente a produção brasileira está melhor do que nos anos 1990, época em que diz ter acontecido um “eclipse“ no cinema nacional. “Quando eu estava na faculdade, havia um ou dois filmes por ano. Hoje, são 120. Mudou da água para o vinho. Acho que é um momento de mudança de tudo: produção, exibição e público“, avalia.

Questionado sobre sua expectativa para a recepção de “Entre Vales“ no Festival do Rio, o diretor diz acreditar que ela funcionará como um “termômetro“ para o real lançamento do filme, em abril de 2013. “É um termômetro para entender onde o filme conquistará relevância“.

Barcinski ainda destaca o evento como uma boa plataforma para permitir que o filme atinja o sucesso em três frentes: a bilheteria nacional, a carreira internacional e a discussão pública. “Acho importante que os filmes aconteçam nesses planos, com uma composição de cada um deles. É aí que  O filme conquista seu lugar na história“, declara.