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23/03/2005 - 18h04

Gil apresenta filme "Pierre Verger" em Paris

Por María Carmona PARIS, 23 mar (AFP) - O ministro brasileiro da Cultura, Gilberto Gil, evocou suas raízes africanas ao apresentar nesta quarta-feira, em Paris, o filme "Pierre Verger: Mensageiro entre Dois Mundos", ao lado do cineasta Lula Buarque de Hollanda.

A associação Jangada, que organiza há sete anos o Festival de Cinema Brasileiro de Paris, decidiu criar uma distribuidora, a Jangada Distribution, dedicada ao cinema nacional, e este ano distribuirá sete filmes brasileiros em salas francesas.

"Pierre Verger: Mensageiro entre Dois Mundos" é o primeiro deles e tem estréia prevista para 30 de março.

Em função da estréia, Gilberto Gil, que está em Paris participando dos eventos inaugurais do Ano do Brasil na França, e Lula Buarque de Hollanda receberam em um grande hotel parisiense um grupo de jornalistas.

O documentário, do qual Gilberto Gil é o narrador, conta a vida do fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger, que viveu grande parte de sua vida em Salvador, dedicado ao estudo do candomblé e da influência africana na cultura baiana.

"Tudo isto começou quando fazíamos um filme sobre Gilberto Gil e filmamos uma entrevista com Pierre Verger, seu amigo há 30 anos. Decidimos fazer uma entrevista mais longa, que devia ser o início de um novo projeto. Mas no dia seguinte, Verger, que tinha 93 anos na época, morreu. Nós ficamos com essa entrevista filmada e a realização do filme nos pareceu necessária", contou o cineasta.

"Lula decidiu procurar na África os caminhos de Verger, seus amigos, as pessoas que tinham relação com a sua vida e com os temas que interessavam a ele", explicou o ministro Gil.

"Quando o filme ficou pronto foi muito emocionante para nós porque era um grande amigo e alguém muito importante para a compreensão de elementos que são constituintes da condição brasileira, as raízes africanas do Brasil", acrescentou.

Perguntado se esta viagem à África foi também um rito de passagem rumo às suas próprias origens, Gil respondeu:

"Acho que sim, necessariamente, porque o que o filme conta está relacionado com a formação do meu país, do meu povo e de mim mesmo, já que descendo destes africanos trazidos como escravos para o Brasil".

"O filme nos leva a Benin, ao Golfo da Guiné, ao lugar de onde os escravos partiram. A viagem a esta região pode ser considerada uma busca das raízes ou algo parecido", acrescentou.

Gil comentou que "há muitas coisas semelhantes, o candomblé, os ritos, a cozinha, a forma de viver, a dimensão afetiva. Tudo isto se parece muito. A gente sente que tem as mesmas fontes".

Falando de Pierre Verger, o ministro da Cultura disse que o francês "trabalhava com uma mistura de consciência e impulso intuitivo. A princípio, não via o caráter etnográfico do seu trabalho, fazia fotos, captava a paisagem humana da cidade. Depois, começou a escrever e a refletir, e seu trabalho passou a ser considerado importante cientificamente".

"Mas ele rejeitava a condição de cientista. Não se achava importante. Para ele, o essencial era o homem, a relação do homem com a natureza, a beleza, o aspecto estético e humano", acrescentou.

"Mas o que é a ciência? Não é mais que uma outra forma de falar de beleza, da profundidade da relação entre o homem e a natureza e dos homens entre si", sustentou.

Verger era também integrante do candomblé, ao qual foi iniciado em 1953 e no qual galgou posições importantes. Mas será que ele era realmente crente?

"Verger disse claramente que não acreditava em cultos africanos, que era muito racionalista para crer, mas tinha, ao mesmo tempo - como eu e muitos outros - um respeito profundo pelo lado estético da religião, pela dinâmica desenvolvida entre a crença e a vida cotidiana, pela estética das divindades e de sua representação através da pintura e da escultura", explicou Gil, que emendou, sorrindo, "a questão não é acreditar ou não acreditar, a questão é viver".

"Talvez para ele a existência fosse mais importante que a transcendência. Para mim também é assim. O que surge, o que vem com o dinamismo e a energia da vida, isto é o que importa", concluiu.

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