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26/07/2010 - 07h03

Barbado e irascível, Duvall estrela em "Get Low"

  • Em Get Low, Robert Duvall contracena com Bill Murray

    Em "Get Low", Robert Duvall contracena com Bill Murray

NOVA YORK, EUA - Robert Duvall está sentado alerta e ligeiramente inclinado à frente, com suas mãos apoiadas em seus joelhos.

É assim que o repórter o encontra em um quarto de hotel em Manhattan, mas a sensação é de que o espaço mais parece uma varanda interiorana. A conversa com o ator veterano parece um pouco como conversar com Gus McCrae, o rancheiro que ele interpretou na amada minissérie de 1989, “Os Pistoleiros do Oeste”, um papel que ficou profundamente impregnado em seus ossos desde então.

“As pessoas estão fazendo agora todas essas refilmagens”, ele diz, “mas há histórias originais para serem contadas”.

Não faltam histórias para Duvall, 79 anos. Ele demorou para descobrir seu talento, encontrando seu caminho após uma passagem pelo Exército, como um jovem ator na Nova York dos anos 50, correndo atrás de papéis (e garotas) com seus amigos então desconhecidos, Gene Hackman e Dustin Hoffman.

De lá para cá ele reuniu um currículo reverenciado como ator de composição e ocasional protagonista, com interpretações fortes, físicas, em filmes como “O Poderoso Chefão”, partes 1 e 2, “Rede de Intrigas”, “Apocalipse Now”, “A Força do Carinho” (pelo qual ganhou um Oscar) e o filme de 1997 que ele escreveu e dirigiu, “O Apóstolo”.

Seu mais recente é “Get Low” (por enquanto sem data de estreia agendada no Brasil), que será lançado em circuito limitado em 30 de julho nos Estados Unidos. Nele, ele interpreta Felix Bush, um eremita barbado do Tennessee da era da Depressão, que convence o agente funerário da cidade (Bill Murray) a lhe realizar um funeral antes de sua morte.

Para Duvall, é um papel adequado, um solitário irritadiço vivendo segundo seu próprio código modesto.

Duvall permitiu que o personagem, ajustado para ela nas revisões do roteiro, ganhasse forma enquanto estudava o papel no norte da Argentina. Ela passa grande parte de seu tempo em Buenos Aires, onde conheceu sua quarta e atual esposa, Luciana Pedraza, que estrelou em seu filme de 2002, “O Tango e o Assassino”.

“Para alguns papéis - como este - eu apenas fico sentado lá olhando para os Andes”, diz Duvall. “Você fica ruminando em sua imaginação. Alguém disse: ‘Interprete as partes que são mais proeminentes em seus devaneios’.”

Duvall às vezes extrai os gestos de um personagem de lugares diferentes. Muitos dos gestos de McCrae, por exemplo, ele tirou do texano e ex-jogador dos Redskins, Sammy Baugh, que ele encontrou casualmente. Para “Get Low”, Duvall pensou em seus tios na Virgínia, onde ele possui uma fazenda.

A interpretação, acredita Duvall, sempre deve buscar “um mínimo de verdade”.

“Eu tento trabalhar apenas conversando e escutando, partindo daí, deixando que ela cresça”, ele diz, com sua mão subindo. “É preciso ter cuidado ao dizer, ‘Eu me tornei o personagem’, porque então se transforma em algo externo. Você só tem um conjunto de emoções, uma psique. Então precisa ser assim: é sempre você fazendo aquilo. Os melhores atores que vejo são assim: ‘Uau, ele realmente está em contato consigo mesmo’.”

O diretor Aaron Schneider, um ex-diretor de fotografia cujo filme de curta-metragem de 2004, “Two Soldiers”, ganhou um Oscar, diz que a “genialidade” de Duvall está em “incorporar plenamente o personagem e seu comportamento”. Ele dá crédito “ao poder de Duvall de atrair os demais atores para seu lado” para um elenco que também inclui Sissy Spacek. O filme foi rodado em 24 dias no ano passado, na Geórgia.

“Muitas das reações ao filme são: ‘O filme é ótimo, mas Duvall é fantástico’ - e é exatamente o que queríamos”, diz Schneider. “Nós queríamos contar uma história sobre uma pessoa interessante.” No ano passado, Duvall engrandeceu dois filmes com breves aparições: como um barman amistoso em “Coração Louco”, e como um velho no fracasso independente “A Estrada”, que o ator disse ter ido “por água abaixo”.

O estado do cinema independente é algo que está presente na mente de Duvall, não apenas porque “Get Low” levou anos para encontrar financiamento e assegurar um lançamento pela Sony Pictures Classics. No início deste ano ele se tornou consultor do OpenFilm.com, um site lançado por James Caan para ajudar a desenvolver o cinema independente.

A respeito da minissérie de 2006 da AMC, “Rastro Perdido”, que conquistou quatro prêmios Emmy (o Oscar da televisão), incluindo um para Duvall, o ator diz que se tivesse sido feito para cinema, “apenas seis pessoas teriam assistido”, Em vez disso, cerca de 30 milhões assistiram - “o interior dos Estados Unidos”, ele diz com orgulho.

Duvall está se preparando para trabalhar em vários filmes, inclusive como Don Quixote, em “The Man Who Killed Don Quixote” de Terry Gilliam, e um papel na possível adaptação de “The Hatfield and the McCoys” - “se Brad Pitt disser sim”, diz o ator.

“Eu não trabalho tanto quanto gostaria”, diz Duvall, ainda caçando papéis com quase 80 anos. “Minha carreira prossegue ótima, talvez melhor do que nunca.”

(Reportagem de Jake Coyle)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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