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13/12/2009 - 09h01

Cinema ajuda China a não esquecer de seu holocausto

Por José Álvarez Díaz

Xangai (China) - Em 13 de dezembro de 1937, o Exército japonês invadiu a então capital chinesa, Nanquim, e nas seis semanas seguintes suas tropas incendiaram e saquearam, estupraram dezenas de milhares de mulheres e assassinaram entre 150 mil e 340 mil pessoas.

Neste dia, como a cada ano, a China lembrará seu "Holocausto" com uma cerimônia no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanquim pelos Invasores Japoneses, construído sobre uma vala comum de mais de dez mil corpos. A diferença desta vez é que a homenagem ganhará o reforço do cinema.

Até pouco tempo atrás, esse massacre era pouco conhecido fora da Ásia, mas essa dívida histórica está sendo saldada com cada vez mais livros, documentários e filmes, entre os quais se destaca "Nanjing! Nanjing!" (ou "City of Life and Death", em inglês, 2009), de Lu Chuan, que ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cinema de San Sebastián neste ano.

  • Divulgação

    Cena do filme "City of Life and Death", do diretor Lu Chuan

"O prêmio pode ajudar a chamar a atenção de mais gente sobre o que ocorreu", disse à Agência Efe o diretor do Memorial, Zhu Chengshan, grande estudioso do massacre.

"Já há vários filmes sobre o tema, mas este é especialmente bom, pois também mostra o ponto de vista dos invasores japoneses, já que estão entre os personagens principais", afirmou Zhu. Rodado em preto e branco, o filme guarda algumas semelhanças com "A Lista de Schindler" (1993), de Steven Spielberg.

Segundo os estudiosos chineses, a história de seu "Holocausto" tem todos os ingredientes para ser comparada com o que os judeus sofreram durante a Segunda Guerra Mundial.

Há até mesmo um "Oskar Schindler chinês", o alemão John Rabe, representante da multinacional Siemens na China em 1937. Ele liderou um grupo de 22 estrangeiros que ficaram em Nanquim para criar uma Zona de Segurança Internacional para refugiados, salvando entre 250 mil e 300 mil vidas.

Junto com Rabe, conhecido pelos chineses como "o bom alemão de Nanquim", se destacam no museu do Memorial os missionários americanos Minnie Vautrin e John Magee, cuja câmera gravou as primeiras e mais exaustivas imagens do massacre.

As cópias das gravações de Magee foram enviadas aos Estados Undios e à Alemanha para que o líder nazista Adolf Hitler as visse e protestasse perante os japoneses.

Nelas, aparecia a família assassinada de Xia Shuqin, uma menina que sobreviveu, gravemente ferida, se escondendo por 14 dias entre os cadáveres dos nove parentes que perdeu.

"Só em minha rua mataram umas 400 pessoas, e muitas jovens foram estupradas. Tudo isto me deprimiu durante toda minha vida", disse à Xia, hoje com 80 anos, à Efe. "China e Japão deveriam resolver suas diferenças e aprender a lição da história", opinou.

Nesse sentido, Zhu destacou que "no Japão, muitos cidadãos, principalmente os jovens, não conhecem esta história porque os políticos de direita não querem reconhecer os efeitos da invasão e modificam os livros de história para esconder a verdade".

No entanto, o diretor do Memorial de Nanquim disse que, "a cada dia, há mais japoneses que a conhecem, graças ao aumento das relações entre os dois países".

"Há muitos japoneses que querem contar a verdade aos jovens, que vêm a Nanquim frequentemente e divulgam a história", acrescentou Zhu, e explicou que inclusive há escolas japonesas que a cada ano visitam o museu com seus alunos "para que conheçam a verdade desde pequenos".

Zhu concluiu lembrando uma famosa frase dos diários de Rabe, que escreveu que o que estava acontecendo em Nanquim pode chegar a ser "perdoado, mas nunca esquecido".

"Rabe tinha razão", assegurou, "seja um chinês ou um estrangeiro, esta é uma história que podemos perdoar, mas não esquecer, porque se esquecemos de nossa história agora, podemos perder nosso futuro".

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