05/05/2011 - 14h59

"Não se Pode Viver sem Amor" combina realismo e fantasia

Premiado roteirista ("Pixote", "Jogo Subterrâneo") e diretor eventual ("Proibido Proibir", "A Cor do seu Destino"), Jorge Durán trilha caminhos ousados em seu novo longa, "Não se Pode Viver sem Amor", que desde sua première, há um ano no Cine PE, colheu mais incompreensão e pedras do que alguns merecidos elogios, no mínimo, por sua coragem.

"Não se Pode Viver sem Amor" aproxima-se do realismo mágico do escritor colombiano Gabriel García Marquez e até do brasileiro Jorge Amado - em cuja obra coisas fantásticas (no sentido de fantasia) acontecem a pessoas comuns.

É um filme que pede uma mente aberta, distanciamento do realismo estrito com os dois pés fincados no chão. É preciso mergulhar no lirismo e aceitar os estranhamentos do filme com certa naturalidade.

Gabriel (o estreante Victor Navega Mott), ao lado de Roseli (Simone Spoladore, premiada em Gramado no ano passado) sai de uma cidade do interior e vai para o Rio de Janeiro em busca do pai, também chamado Gabriel, que os abandonou.

O garoto é dono de uma imaginação prodigiosa, talvez de poderes sobrenaturais - isso nunca é realmente esclarecido, mas também não é importante porque, como fica claro, "Não se Pode Viver sem Amor" é um filme que está mais próximo do sonho.

No Rio, o professor Pedro (Ângelo Antonio) trabalha no táxi do pai (Rogério Froes). Sua vida se cruza com a de João (Cauã Reymond), jovem sem perspectivas de futuro que eternamente espera passar num concurso público. Apaixonado por uma dançarina, Gilda (Fabiula Nascimento), e sofrendo com a falta de dinheiro, João toma medidas drásticas para conquistar o amor da garota e fugir com ela.

TRAILER DO FILME "NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR"

O Rio de Janeiro onde os personagens transitam está longe da Cidade Maravilhosa dos cartões postais. Reconhecemos aqui e ali lugares do centro antigo, mas sempre distantes da badalação das praias ou bairros ricos.

Também não é o Rio das comunidades. É um Rio de Janeiro, às vezes, tão surreal quanto o filme. Essa paisagem cabe muito bem como cenário para esses personagens repletos de desilusões, que buscam um fio de esperança em que acreditar para seguir em frente.

Num certo sentido, "Não se Pode Viver sem Amor" compartilha seus estranhamentos com "Insolação", de Daniela Thomas e Felipe Hirsch.

Embora o filme de Durán seja mais acessível, o que não o protegeu de sofrer críticas exageradas e preconceituosas nos festivais por onde passou, os dois longas (além de terem ambos Simone Spoladore no elenco) compartilham de personagens vagando em busca de suprir suas carências.

O belo título do filme de Durán começa a fazer sentido ao longo da narrativa. A solidão é a inimiga maior desses personagens, sempre em busca de alguém que os complemente. E quando a realidade é impossível de ser transformada, a fantasia assume o controle.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

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