18/08/2011 - 15h16

"A Alegria" leva para tela diálogo com a fantasia

<a href=http://noticias.uol.com.br/ultnot/reuters/><img src=http://n.i.uol.com.br/ultnot/home/reuters.gif border=0></a>

Há uma ironia muito grande no título de "A Alegria", segundo longa da dupla Felipe Bragança e Marina Meliande (mas primeiro a chegar ao circuito comercial). Se é proposital ou não, tanto faz. A verdade é que este é um filme sobre o tédio, sobre as coisas que as pessoas - especialmente os jovens - são capazes de inventar quando têm tempo de sobra e procuram romper a rotina.

Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2010, "A Alegria" é um filme sobre jovens, mas há dúvidas se é para jovens. Os protagonistas parecem viver num mundo à parte - ou talvez tenham vindo de outro, o que é uma explicação bastante plausível ao final da trama.

Eles estão muito mais próximos dos emos sofredores sem causa de "Os Famosos e os Duendes da Morte", do que do viés naturalista de "As Melhores Coisas do Mundo", "Antes que o Mundo Acabe" e até "Desenrola".

A oposição entre os jovens retratados nos dois grupos de filmes é nítida. No segundo, é uma juventude de carne e osso, que vemos na porta da escola, no shopping, na praia. Já no primeiro caso, os diretores (Bragança e Marina, de "A Alegria"; e Esmir Filho, de "Os Famosos...") miram numa idealização de um grupo que foge do convencional.

TRAILER DO FILME ''A ALEGRIA''

Curiosamente, esses dois filmes têm uma proposta estética mais ousada do que outros três - mas isso também não quer dizer que sejam bem-sucedidos.

Criar personagens que pouco ou nada se assemelhem a pessoas de verdade, a priori, não seria um problema, pelo contrário. Mas, em ambos os longas, as figuras não encontram a densidade necessária para extrapolar sua existência além-filme.

É como se Luiza (Tainá Medina) e sua turma fossem criadas apenas para existir enquanto personagens de ficção durante pouco mais de uma hora e meia. São como pessoas recortadas de uma placa de papelão. Como acreditar em personagens que parecem criados sem passado e sem futuro além da delimitação do começo e final de "A Alegria"?

O esforço dos diretores em criar uma obra cinematográfica com identidade própria e de grande poder visual está impresso em cada cena. E isso, no fim, é um ponto contra, porque não deixa o filme respirar. É meditado demais, calculado demais em todos os seus detalhes, em todo o seu esforço visual e narrativo.

O grupo de jovens do elenco - que inclui, além de Tainá, Flora Dias, Rikle Miranda e Cesar Cardadeiro (que em 2008 esteve excelente como Bentinho, na série "Capitu") - é visivelmente talentoso, mas falta uma direção de atores segura para guiá-los (a maioria é estreante), para ajudá-los a achar seus personagens.

O trânsito a que "A Alegria" se propõe entre o drama realista e a fantasia juvenil nem sempre acontece numa estrada bem asfaltada. Os solavancos dos buracos poderiam fazer parte da viagem, se a paisagem pela janela fosse um tanto mais inspiradora. No entanto, o longa cobra um certo esforço que não é recompensado à altura.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb