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Fotografia brilhante e grandes atuações dão vida a "Praia do Futuro"

Guilherme Solari

Do UOL, em São Paulo

14/05/2014 18h10

Novo filme do diretor de "O Céu de Suely" e "O Abismo Prateado" Karim Aïnouz, "Praia do Futuro", que estreia nesta quinta (15), consegue capturar temas como vulnerabilidade, abandono e busca da felicidade com poucas palavras. É um filme inteligente, mas não hermético, que consegue ser delicado e forte. "Praia do Futuro" dá poucas respostas e faz o que afinal a arte faz melhor: levanta ainda mais perguntas para a plateia.

O longa conta a história de Donato (Wagner Moura), guarda-vidas da Praia do Futuro em Fortaleza que pela primeira vez em sua carreira falha em salvar uma vítima de afogamento. Ele conhece o amigo da vítima, o motoqueiro alemão Konrad (Clemens Schick), com quem inicia uma relação. Donato parte junto com ele para a Alemanha em busca de nova vida, deixando para trás Ayrton, o irmão que o adorava. Oito anos depois, Ayrton (Jesuita Barbosa) parte para a Alemanha em busca do irmão mais velho.

Em um recente encontro com a imprensa durante a pré-estreia do filme, Wagner Moura lamentou como os produtores nacionais não costumam considerar o ensaio como parte importante das produções, e que o tempo de ensaio que tiveram em "Praia do Futuro" foi importante para a qualidade da atuação. Isso de fato se reflete no entrosamento do elenco, que está dividido em dois idiomas e que diz muito com silêncios. A bela cena do reencontro entre Donato e Ayrton foi ensaiada à exaustão e levou um dia inteiro para ser filmada. O resultado é uma briga de fúria acumulada que se transforma num abraço igualmente furioso. Um momento que dificilmente seria capturado em dois ou três takes.

Já a primeira imagem de "Praia do Futuro", com uma dupla de motociclistas correndo entre as dunas e as turbinas eólicas brancas abaixo de um céu azul, mostra a força de sua fotografia. A câmera afastada dá espaço aos personagens, que parecem vagar por uma tela em movimento. Outro grande momento é num aquário em Berlim, com o enquadramento começando em detalhes e lentamente revelando o cenário. Até mesmo as paisagens berlinenses com seu clima inóspito ganham uma beleza particular.

A escolha de cenário faz com que Fortaleza e Berlim pareçam dois planetas diferentes. A capital do Ceará e sua Praia do Futuro são lugares brilhantes, claros e quentes; iluminados por um Sol onipresente. A Alemanha no filme é um lugar perpetuamente nublado, inóspito e frio. Mas como tudo em "Praia do Futuro", isso não é retratado de forma maniqueísta de melhor ou pior. Os lugares, e as pessoas, são aceitos pelo que são.

"Praia do Futuro" é um filme inteligente repleto de paralelos. A praia do título ao mesmo tempo leva ao futuro e fica presa na memória do passado. O fantasma do afogado se alinha com a fantasma idealizado de Donato na lembrança de Ayrton. Os personagens são externamente fortes, mas internamente vulneráveis. Donato, o "Aquaman" de Fortaleza, se muda para uma cidade sem mar e acaba trabalhando dentro de um aquário. Os próprios apelidos de Aquaman (Donato), Speed Racer (Ayrton) e Motoqueiro Fantasma (Konrad) revelam novas camadas das personalidades dos protagonistas.

E por mais que a presença de um relacionamento gay do eterno Capitão "Wagner Moura" Nascimento chame as manchetes é injusto rotular "Praia do Futuro" e qualquer longa por sinal de "filme gay". Não é uma história com amor de duas pessoas do mesmo sexo, mas a história com amor entre duas pessoas, que por acaso são do mesmo sexo. "Praia do Futuro" vai além de esteriótipos tanto da sexualidade quanto sobre a narrativa. Um filme não sobre o certo ou errado, mas abandono, solidão, vulnerabilidade e pessoas vivendo com o peso de suas escolhas.