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Joãosinho não tinha vida pessoal fora do barracão, diz diretor de "Trinta"

Natalia Engler

Do UOL, no Rio

02/10/2014 20h15

Quem espera uma cinebiografia com revelações sobre a vida privada de Joãosinho Trinta, o artista que revolucionou o Carnaval do Rio de Janeiro, vai se decepcionar com "Trinta", filme sobre o carnavalesco estrelada por Matheus Nachtergaele e dirigida por Paulo Machline, que teve pré-estreia durante o Festival do Rio.

Mas a ausência de novidades sobre João não é gratuita, conta o diretor, que foca seu longa na iniciação do carnavalesco, entre os anos 1960 e 1973. "Ele não tinha vida pessoal, privada, fora do barracão. Era aquilo. Faltando seis meses para o Carnaval, ele se mudava para o barracão e só voltava para casa depois da apuração", conta Paulo em entrevista ao UOL.

Matheus Natchergaele em cena de "Trinta" - Divulgação/Fox - Divulgação/Fox
Matheus Natchergaele em cena de "Trinta"
Imagem: Divulgação/Fox

O diretor lembra que havia um período em que Joãosinho descansava por pouco mais de um mês, que geralmente era interrompido por algum convite de viagem. "Tinha esses compromissos, mas ele não tinha vida própria, a vida dele era o Carnaval. A casa dele era o barracão. E como eu havia acompanhado a construção de um Carnaval, a trama do filme que me interessou, porque eu conheci profundamente, estava dentro do barracão. O João era uma pessoa muito só. Ele tinha amigos, ele tinha colaboradores, mas ele não convivia muito com a família", completa o diretor.

O cineasta se interessou pela história de Joãosinho Trinta ao ler um artigo de Carlos Heitor Cony publicado em 2002, quando estava à procura de um novo filme, depois de ter concorrido ao Oscar de curta-metragem com "Uma História de Futebol". "O que me chamou a atenção no artigo foi a admiração de um acadêmico por um autodidata. O Joãosinho não foi à escola, não foi à faculdade. Ele fugia de casa e ia para a biblioteca municipal de São Luís, onde conheceu os filósofos gregos, a obra de Shakespeare e de tantos outros, com 11, 12 anos. Esse cara que trouxe para a cultura popular uma coisa tão erudita, sem a academia, sem universidade, me espantou. Eu disse que precisava conhecer melhor o Joãosinho, achei que dava filme".

A partir daí, como havia pouco material para pesquisa sobre o carnavalesco, Paulo entrevistou o próprio João em diversas ocasiões, além de amigos e colaboradores, o que acabou resultando "acidentalmente" no documentário "A Raça Síntese de Joãosinho Tinta", lançado em 2009. Mas a impressão inicial, dessa ponte entre erudito e popular feita por Joãosinho, continuou na cabeça do diretor, que acabou transformando-a em eixo central de "Trinta" ao retratar a passagem de João Jorge Clemente Trinta de aspirante a bailarino do Theatro Municipal, pouco depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, ao carnavalesco que levou o Salgueiro à vitória em 1974.

"As frustrações que ele colecionou no mundo erudito fizeram com que ele procurasse outras coisas. Mas, ao mesmo tempo, foi onde ele adquiriu o conhecimento de fato. Quando ele foi para o mundo da cultura popular, ele trouxe o conhecimento do erudito. E eu acho que a grande sacada dele foi quando conseguiu juntar as lendas da infância dele com essa cultura erudita. Daí veio o Carnaval original do Joãosinho", explica Paulo.

Trailer do filme "Trinta"

Carnaval de 1989

Apesar de querer contar a história antes da criação do mito, Paulo quase cedeu à tentação de levar à tela um dos desfile mais polêmicos do Carnaval carioca, de 1989. Na ocasião, a Beija-Flor, então comandada por Joãosinho, levou para a avenida o enredo sobre lixo "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia", com passistas vestidos de mendigos e um Cristo esfarrapado --que foi censurado pela Justiça dois dias antes do desfile, a pedido da Cúria Metropolitana do Rio, e teve que ser coberto por uma lona preta e uma faixa com os dizeres: "Mesmo proibido, olhai por nós".

"A escolha mais óbvia seria o Carnaval de 1989, que já é um filme. É o Carnaval mais famoso do Joãosinho", contou o cineasta. "Não foi uma escolha fácil. É muito tentador contar o Carnaval de 1989, ele tem uma dramaturgia muito forte. Mas em 1989 o João já era o Joãosinho Trinta", conta o cineasta, que explica que queria mostrar a jornada do carnavalesco para se tornar esta espécie de súper-herói do Carnaval.

Outra tentação que Paulo teve que evitar foi a de mostrar um desfile de Carnaval. O primeiro roteiro de "Trinta" era um "épico, um filme hollywoodiano muito caro, que não dava para fazer". "Eu só conheço um cineasta brasileiro que conseguiu reproduzir o Carnaval maravilhosamente bem, e o nome dele é Carlos Saldanha [na animação 'Rio']. Para fazer aquilo, eu precisava de muitos recursos. Claro que seria lindo, mas seria um outro filme", explicou.

No roteiro que chega aos cinemas brasileiros em 13 de novembro, Paulo condensou na preparação de um único Carnaval --a estreia de João como carnavalesco solo, em 1973/1974-- diversos elementos da trajetória do artista: os obstáculos para assumir um Carnaval no meio do caminho, o estremecimento e depois a reconciliação com seu mentor e amigo Fernando Pamplona (Paulo Tiefenthaler), um incêndio no barracão e até a famosa frase: "O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual", cunhada nos anos 1980. Todos os elementos sempre focados na vida dentro do barracão.