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Ex-agente, cineasta diz não acreditar em encarceramento como reeducação

Reprodução/Facebook
O cineasta baiano, radicado em Curitiba, Aly Muritiba Imagem: Reprodução/Facebook

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

14/01/2014 07h00

"São as facções criminosas que administram os presídios brasileiros. São o grande fiel da balança". É o que afirma o ex-agente penitenciário Aly Muritiba, responsável pela "Trilogia do Cárcere" sobre o cotidiano em prisões brasileiras. Segundo ele, a situação nos presídios é tão tensa que sem a presença desses grupos ficaria mais difícil o controle. "São os agentes é que estão com as mãos algemadas, porque as facções se impõem pelo uso da violência, uma linguagem que todos ali entendem", disse ao UOL.

O diretor baiano, que vive em Curitiba, acaba de finalizar sua premiada trilogia com o longa "A Gente". O filme relata o dia a dia de quem trabalha diretamente com os presos, ofício que ele exerceu durante sete anos. Sobre a crise no complexo penitenciário de Pedrinhas no Maranhão, Muritiba disse nunca ter visto nada igual. "Embora muitos dos problemas sejam semelhantes, a situação não é a mesma em todo o país. Pelo contrário, é diferente não apenas entre estados, mas entre presídios".

O cineasta conversou com a reportagem do UOL sobre seus filmes, falou sobre a experiência dentro das prisões do Paraná e a atual crise no sistema penitenciário.


UOL - Depois de filmar dois curtas, por que resolveu fechar a trilogia com um longa?
Aly Muritiba -
Optei por filmar um longa devido a complexidade do tema: o ponto de vista de um agente penitenciário, ou seja, o meu ponto de vista também. Minha intenção foi mostrar o confronto dos agentes com a burocracia, e não o embate com os presos, o que seria o mais esperado. Eu quis fugir do senso comum. E não seria possível construir o discurso que queria no tempo de um curta.

Em sua experiência como agente penitenciário chegou a ver algo semelhante à crise no Maranhão?
Nunca vi nada igual. Mas soube que ocorreram rebeliões no Paraná, e que já aconteceram mortes violentas como essas do Maranhão, antes de eu começar a trabalhar. Até porque brigas entre grupos criminosos existem em qualquer presídio do país. São as facções que administram o sistema carcerário brasileiro, elas são o grande fiel da balança. Onde trabalhei era um pouco mais organizado, os grupos ficavam separados e cuidávamos para que eles não se encontrassem porque sabíamos que sairia morte. Para que um preso chegue a outro, tem que passar pelo agente. Se há brigas entre facções, risco de morte para os agentes é grande.

E como ficam os agentes penitenciários no meio desse fogo cruzado?
A situação nos presídios é tão tensa que sem a presença desses grupos ficaria mais difícil o controle. São os agentes é que estão com as mãos algemadas. Facções impõem sua autoridade pelo uso da força e da violência, uma linguagem que todos ali entendem. O sistema penitenciário, por questão legal, graças a Deus, não pode impor a ordem pela força.

Em sua opinião, atualmente qual o problema mais grave nos presídios?
Embora muitos dos problemas do sistema penitenciário sejam semelhantes, a situação não é a mesma em todo o país. Pelo contrário, é diferente não apenas entre estados, mas entre presídios. Acredito que o grande responsável pelo caos é justamente a falta de padronização de procedimentos, algo que oriente atendimento, comportamento, que garanta instalações com condições dignas para os presos. Cada unidade federativa tem seu próprio departamento penitenciário. Em alguns casos
o chefe de setor é algum funcionário de carreira, mas em outros é cargo político, e aí a coisa foge de controle.

Arrisca alguma solução?
Depois de alguns anos trabalhando dentro do sistema penitenciário deixei de acreditar no encarceramento como forma de reinserir na sociedade ou de reeducar. Primeiro porque boa parte de quem entra na cadeia nunca sequer foi inserido na sociedade. Então, falar de reinserção é uma falácia, uma mentira. Mesmo no Paraná, que é um estado rico, presídios estão lotados de pobres e pretos, desfavorecidos sociais que não tiveram nenhuma educação. Números expõem problema da superlotação nos presídios, que é grave, mas por outro lado, apenas 10% dos crimes cometidos são resolvidos e resultam em prisão. Prende-se demais e por motivos muito banais. Por pequenos furtos indivíduos chegam a passar anos em presídios e são cooptados por facções. Muitos que eram criminosos circunstanciais passam a ser por ofício. É preciso uma grande reforma judicial.

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