Cinema

Após novela e lançando cinco filmes, Irandhir conquista público e cineastas

Natalia Engler

Do UOL, no Rio

De tempos em tempos, surge no cinema brasileiro um ator que parece estar em todos os filmes apresentados em festivais, figuras que mal têm tempo de receber prêmios, porque já têm que voltar ao set de filmagem.

É o caso do pernambucano Irandhir Santos, 36, que tem quatro de seus filmes mais recentes em exibição no Festival do Rio --"A Luneta do Tempo", de Alceu Valença, "Obra", de Gregório Graziosi, "Ausência", de Chico Teixeira, e "Permanência", de Leonardo Lacca--, depois de ter sido premiado como melhor ator no Festival de Paulínia por "A História da Eternidade", de Camilo Cavalcante, e não recebido o prêmio pessoalmente por estar trabalhando.

Apesar de já ser conhecido dos cinéfilos há algum tempo --sua estreia nas telonas foi em "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005)--, Irandhir começou a ganhar evidência no ano passado, com o lançamento de "O Som ao Redor", do também pernambucano Kléber Mendonça Filho, filme pequeno que se tornou um sucesso no boca a boca e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de melhor filme estrangeiro. O processo foi intensificado com "Tatuagem", de Hilton Lacerda, escolhido como melhor filme nos festivais de Gramado e do Rio, e responsável pelo Kikito de melhor ator para Irandhir no evento gaúcho.

Não bastasse o sucesso no cinema, em 2014 Irandhir também foi presença constante na TV: primeiro com a minissérie "Amores Roubados", depois com sua estreia em novelas, na faixa das seis, como o Zelão de "Meu Pedacinho de Chão".

Momento intenso
Com sua fala mansa e baixa e o jeito meio tímido de olhar para os lados enquanto conversa, Irandhir fez uma pausa na correria antes da exibição de "Permanência" no Festival do Rio e tentou explicar ao UOL o momento que está vivendo.

"Ultimamente, apesar de eu ser formado em teatro, o cinema tomou conta dos meus passos, desenvolveu-se uma paixão incrível por essa arte. Mas outros projetos me levaram à TV, experiência realmente distinta, que eu me senti muito movido a querer fazer, passar pelas mãos do Zé Villamarin com uma série maravilhosa que ele realizou junto com o Walter Carvalho, 'Amores Roubados'", relembra o ator, cintando o diretor da série.

"E rever, reatar, reaproximar e matar a saudade do Luiz Fernando Carvalho. Desde 2007, da 'Pedra do Reino', que a gente não trabalhava junto. Foi realmente um grande prazer fazer o 'Meu Pedacinho de Chão' com ele. São projetos que surgem na minha vida, me fisgam, e eu dou vazão para vivê-los intensamente", completa, mencionando agora o diretor da novela das seis.

Talvez não tão intensamente quanto pareça, já que a safra de filmes de Irandhir que está em exibição nos festivais foi produzida em épocas diferentes.

"É engraçado, porque são quatro filmes de épocas totalmente distintas, que calharam de desembocar agora", conta o ator sobre os filmes selecionados para a Première Brasil do Festival do Rio, dois deles na mostra competitiva ("Obra" e "Ausência"), explicando que não se proporia a tocar quatro projetos ao mesmo tempo.

"Tem duas coisas que eu coloco para mim, principalmente nas escolhas dos projetos. Primeiro, são projetos que me movam a querer fazê-los. A outra coisa é ter tempo para realizá-los. Seria muito difícil realizar tudo ao mesmo tempo, me sentir dividido. Acho que não me sentiria 100% presente em cada projeto", diz.

Para Irandhir, talvez seja essa dedicação exclusiva um dos fatores responsáveis por ele receber tantos convites e ter uma produção tão intensa, com 22 filmes e tantas atuações versáteis e marcantes, em pouco menos de dez anos de carreira.

"É engraçado isso", pondera o ator. "Eu sinto que os convites, eles surgem, mas eu tenho a crença de que a vida te coloca diante dos projetos que vão te modificar e te fazer melhor. Todos os projetos que fiz me modificaram, me fizeram ser outro. Por isso que cada um deles eu faço de maneira muito especial. Com certeza isso reverbera de alguma forma para quem assiste, para quem acompanha cinema. Mas parte dessa crença muito forte de que eu estou diante não de mais um projeto, mas de um projeto especial", conclui.

Início
Nascido em Barreiros, na zona da mata pernambucana, Irandhir não começou sua carreira no cinema, mas no teatro, tendo se formado em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco, em Recife. Naquela época, as telonas pareciam apenas um sonho distante.

"O sonho de fazer cinema surge a partir do momento que eu começo a vivenciar a interpretação nos palcos, e através do cinema, participando do ritual que é você se deslocar da sua casa e ir para uma sala de cinema", conta.

"Ao mesmo tempo, não sei por que eu tinha no meu Estado uma impressão de que fazer cinema era algo muito distante. Acho que o 'start', a certeza de que poderia fazer, veio quando assistia a filmes pernambucanos", diz Irandhir, lembrando que o tal "start" ocorreu quando assistiu ao curta "O Soneto do Desmantelo Blue" (1993), do cineasta pernambucano Cláudio Assis.

"Quando assisti, eu vi a minha cidade como cenário, vi pessoas da minha cidade como personagens, e disse 'ah, é possível fazer cinema'. Aquilo foi um bom impulso para querer fazer. E aí vieram os primeiros filmes", conta. Entre eles, "Baixio das Bestas" (2007), do próprio Cláudio Assis, em que Irandhir conseguiu o papel de Maninho por meio de testes, e o primeiro set de filmagens, com uma pequena participação em "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), do recifense Marcelo Gomes. "Foi através desses mestres que eu iniciei os passos nessa trajetória", lembra Irandhir.

Público da TV
O ator diz que a experiência de estar na TV diariamente com "Meu Pedacinho de Chão" neste ano ainda não teve influência na quantidade e no tipo de projeto que chega a ele, mas já contribuiu para ampliar o público, não mais restrito a cinéfilos, que agora o reconhece pelas ruas --e a quem Irandhir retribui com paciência, posando para fotos e se dispondo a alguns minutos de conversa.

"É muito curioso isso, do alcance que a televisão tem na vida dos brasileiros. Tenho recebido palavras de carinho, palavras de admiração. É engraçado, porque na novela eu era muito caracterizado. Tinha todo um aparato de roupa especial, maquiagem, aplique de cabelo. E na rua, mesmo sem esses aparatos todos, as pessoas se aproximam para falar", conta.

"Mas é um outro público, realmente, com o qual eu não estava acostumado, e estou passando a vivenciar agora esse tipo de experiência", diz o pernambucano, que transforma esse carinho "em motor, em pequenos empurrões" que o levam adiante para os próximos projetos.

Futuro

Questionado sobre os projetos para o futuro, Irandhir diz querer que eles continuem o levando para o "campo sagrado e mágico", de criação e reinvenção, que a experiência de interpretar propicia, seja na TV, em um palco ou no cinema. "Esse sagrado, esse campo mágico, é o lugar onde eu sempre vou querer pisar", diz ele. "Se daqui para frente eu permanecer frequentando esse campo, esse espaço sagrado, eu vou ser ainda mais feliz", conclui.

Ao que parece, Irandhir não terá dificuldades para concretizar esse objetivo. Além de ter dois filmes seus confirmados na programação da Mostra de Cinema de São Paulo --"A História da Eternindade" e "Permanência"--, o ator já está ensaiando para um novo projeto, que começa a ser filmado em duas semanas: "Redemoinho", uma adaptação de contos do escritor Luiz Ruffato, que repete a parceria da série "Amores Roubados", com direção de José Luiz Villamarin e fotografia de Walter Carvalho --que interrompeu a entrevista para dar um abraço no ator, mostrando o quanto Irandhir é querido no meio.

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