Cinema

Rodado no Vietnã, curta de paulista pré-candidato ao Oscar pode virar longa

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

Primeira coprodução Brasil-Vietnã e pré-candidato ao Oscar, o curta-metragem "O Caminhão de Meu Pai", do diretor paulista Mauricio Osaki, pode dar origem a um longa. Segundo o cineasta, existe um projeto para isso. 

"Estamos tentando entrar nos editais de desenvolvimento no Brasil, mas  é uma logística difícil", contou ao UOL o diretor, por telefone, direto da China, onde se prepara para filmar seu trabalho de conclusão do curso de cinema na Universidade de Nova York.

Apesar de contar com a equipe brasileira, o filme não contou com nenhum recurso do país de origem de Osaki. O filme chegou a lista de pré-indicado sem campanhas e permanecerá assim, segundo o diretor, os custos são muito altos. 

Se a notícia da pré-indicação ao Oscar pode ajudar Osaki a acelerar a produção do longa-metragem, ele diz que ainda é cedo para dizer. Curtas-metragens que viram longas, no entanto, não são novidade do Brasil.

De Daniel Ribeiro, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", que concorre a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2015, nasceu como o curta "Eu Não Quero Voltar Sozinho", de 2010.

Traços brasileiros

À primeira vista, "O Caminhão do Meu Pai", que foi rodado em Hanói, capital do Vietnã, com atores locais, tem pouco de Brasil. No entanto, um olhar mais atento garante que o filme possui, sim, alguns traços tupiniquins. 

"O diretor de fotografia [Pierre de Kerchove] e a assistente de direção [Flávia Guerra] são brasileiros, assim como eu. Há colegas da universidade na equipe também, e os atores são vietnamitas. Essa miscigenação da equipe é uma característica bem brasileira", diz Osaki. 

Engana-se também quem pensa que as paisagens asiáticas não têm nada a ver com as brasileiras. Apesar de ter nascido em São Caetano, no ABC paulista, o diretor passou a infância no interior dos Estados do Pará, de Goiás e do Amapá. "Meu pai é engenheiro, e ficávamos mudando de cidade a cada novo projeto."

Quando chegou ao Vietnã para rodar o filme, em janeiro de 2012, as ruas de terra e os restaurantes à beira da estrada que encontrou reacenderam a memória de infância do cineasta. "O Brasil é muitos países em um só, mas nos dois lugares existe essa coisa árida e muito viva ao mesmo tempo, onde as pessoas são por elas mesmas. Minha mãe fervia a água para podermos beber, tirava aranhas da casa. Eu cresci nesse ambiente."

A trama
O curta --no qual todos os personagens têm os mesmos nomes dos atores-- conta a história de Mai Vy, uma garota de dez anos que passa a odiar os meninos da escola após uma perseguição que termina mal. Ela pede para passar o dia com o pai, que transporta agricultores pelas plantações, mas acaba descobrindo que, além disso, ele também leva cães para um abatedouro.

Quando esteve em São Paulo para apresentar o filme no Festival de Curtas Kinoforum, em agosto deste ano, Osaki pensou que a violência contra os animais pudesse ser um problema para os espectadores, "mas as pessoas entendem que é essencialmente sobre a relação complexa de pai e filha. Existe um amor duro ali, mas há amor".

Divulgação
O diretor Mauricio Osaki (centro) posa para fotos com os atores Mai Vy e Trung Anh de "O Caminhão do Meu Pai" imagem: Divulgação
Os atores
Com a ideia de falar sobre essa relação familiar num contexto de trabalho infantil, Osaki queria um menino para o papel da criança, mas não encontrou. Quando resolveu abrir o casting para meninas, surgiu a pequena Mai Vy, que fala inglês fluentemente. Ela também adora bichos e ganharia um cachorro de Natal, o que ajudou na carga dramática. Hoje, Osaki não sabe o que o filme seria sem ela. 

Já o ator que faz o pai, Trung Anh, não falava uma palavra de inglês, mas, como tinha muita experiência com teatro, entendeu a essência do personagem rapidamente. Osaki diz que o ator certamente estará na versão longa do projeto, caso seja realizada, já que eles acabaram ficando amigos. No entanto, a pequena Mai Vy deve ser substituída por outra criança, pois a atriz, quase três anos depois, já é pré-adolescente.

Com o projeto de conclusão do curso de cinema e a ideia do longa, Osaki, cujos avós são japoneses, deve ficar mais um tempo trabalhando no Oriente. "Sou brasileiro e quero fazer filmes no meu país também, claro, mas acho que eu vou ficar para sempre entre Brasil e Ásia." 

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