Filmes e séries

"Perdido em Marte" tem momentos que parecem ficção, mas não são

Salvador Nogueira*

Especial para o UOL

29/09/2015 06h15

O filme "Perdido em Marte", que estreia nesta quinta (1º), quase poderia ser classificado como "baseado em fatos reais". Só não é porque os fatos ainda não aconteceram. Mas, de resto, ele lembra uma versão futurista de "Apollo 13", tamanha a verossimilhança apresentada em tela. Com facilidade, é o longa-metragem de ficção cientificamente mais acurado já produzido sobre o planeta vermelho.

Baseado no livro homônimo do escritor americano Andy Weir, o filme seguiu de forma bastante fiel a história original, que por sua vez revelou uma saudável obsessão por detalhes técnicos. Para que se tenha uma ideia, é possível, com base no livro, indicar em um mapa em que lugares de Marte esteve o astronauta Mark Watney, vivido por Matt Damon, e qual foi o trajeto percorrido nos pouco mais de 600 sóis (sol é o dia marciano, que dura 24h39) em que o personagem passou "perdido" no planeta vermelho.

Da mesma maneira, Weir pesquisou bastante –e consultou diversos especialistas– para construir uma história sofisticada em torno das tecnologias que devem marcar as primeiras missões tripuladas a Marte– nos planos da Nasa, elas devem acontecer até o fim da década de 2030.

A agência espacial americana inclusive prestou consultoria à produção, e o resultado é algo muito diferente –em qualidade e em realismo– dos filmes que compuseram a onda de longas-metragens marcianos na década de 1990 ("Missão: Marte", "Planeta Vermelho" e "Os Fantasmas de Marte", todos horríveis, cada um a seu modo).

Em linhas gerais, nada do que é mostrado em “Perdido em Marte”, em termos de tecnologia espacial, é forçação de barra. Na verdade, se a Nasa quisesse hoje executar um programa de exploração tripulada de Marte nos moldes do visto no cinema, não haveria dificuldade técnica. Falta só a grana –algo que pode até mudar no curto prazo, com descobertas como a anunciada detecção de fluxos de água corrente no planeta vermelho.

Por esse ângulo, o filme tem pelo menos três acertos tão incríveis que podem até parecer ficção, mas não são! A gente explica:

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Imagem: Divulgação

1 - A plantação de batatas

Na minha opinião, essa é a coisa mais incrível que Mark Watney fez em sua estadia fictícia no planeta vermelho. Ele criou uma plantação sustentável de batatas usando o seu habitat pressurizado para criar as condições ideais e solo marciano para o cultivo. A pergunta que não quer calar é: teria dado certo? Por incrível que pareça, sim! Estudos mineralógicos feitos pelos jipes Spirit e Opportunity, que estiveram mesmo em Marte (um deles, o Opportunity, chegou lá em 2004 e está funcionando até hoje!), mostram que o solo é suficientemente rico em minerais para sustentar um cultivo menos exigente, como o de batatas. Mas, claro, para isso acontecer, também é preciso ocorrer a fixação de nitrogênio nesse solo, trabalho que na Terra é feito por bactérias. Watney tinha nitrogênio em sua atmosfera artificial, mas para fixá-lo no solo ele ia precisar das bactérias apropriadas. Sorte que nós, humanos, carregamos mais células de bactéria em nós mesmos do que células de nós mesmos (sim, somos cada um de nós basicamente um condomínio de luxo para bactérias). Assim, não foi difícil Watney –botânico de formação– encontrar uma fonte prolífica de microrganismos úteis para fertilizar seu solo e plantar suas batatas.

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2 - Astronavegação em ação

Uma das coisas menos intuitivas da exploração espacial são as rotas e os meios pelos quais naves viajam a seus destinos. O método mais tradicional envolve foguetes de combustão química. Eles basicamente aceleram o veículo a uma altíssima velocidade em poucos minutos e depois se desprendem, colocando a nave em seu rumo final. Dali em diante, o veículo avança basicamente em "queda livre", descrevendo um trajeto pautado pela gravidade do Sol e dos planetas, que o levará, por inércia, ao seu destino. Contudo, em anos recentes, novas tecnologias de propulsão têm sido desenvolvidas para voos espaciais, que permitem mais flexibilidade de manobras. São os motores iônicos. Eles funcionam ejetando partículas em altíssima velocidade para fora do veículo, e com isso propelindo-o adiante, pelo princípio de ação e reação. Esses dispositivos oferecem uma aceleração muito, muito baixa, mas contínua, ao longo de meses ou anos. Então, embora o ritmo de aumento da velocidade seja pequeno, com o passar do tempo é possível atingir velocidades prodigiosas. Sem contar nenhum segredo da história, basta dizer que todas as manobras espaciais vistas em "Perdido em Marte" seguem rigorosamente o que se esperaria delas, com base nas leis da física e no nosso desenvolvimento tecnológico. Não há milagres nos voos espaciais do filme.

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3 - Reprogramação

Para restabelecer contato de rádio com a Terra, Mark Watney não só resgata o jipinho Sojourner e o módulo de pouso Pathfinder, que chegaram ao planeta vermelho em 1997 e operaram até o ano seguinte, mas precisa conseguir recolocá-los em funcionamento e, mais adiante, usá-los como transmissores conectados ao jipe pressurizado que ele tem para se deslocar em Marte. Será que teria como fazer isso? Bem, o autor do livro, Andy Weir, era programador antes de virar escritor, então ele sabe, ao menos em linhas gerais, distinguir o possível do impossível. Mas certamente não seria nada fácil. E, sinceramente, seria ainda menos provável que Watney conseguisse colocar para funcionar equipamento sem uso e exposto ao ambiente de Marte por décadas. Mas é justamente esse espírito de "MacGyver do espaço", tirando coelhos seguidos da cartola para sobreviver, que faz de "Perdido em Marte" um filme memorável.

Ainda assim, estamos falando de Hollywood, e isso exige que coloquemos as coisas em perspectiva. Ficção é ficção. Tendo isso em mente, apontamos também três "viagens" presentes em "Perdido em Marte", que não condizem com o que a ciência já sabe.

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1 - O perigo das tempestades de areia

Marte é rotineiramente coberto por tempestades de areia, e é justamente uma delas o marco inicial da história e o que faz Watney (Damon) ficar sozinho no planeta vermelho. Embora de fato as coisas possam ficar feias por lá durante um desses eventos –a poeira suspensa chega a encobrir a luz solar e cortar a principal fonte de energia para missões tripuladas ou não-tripuladas–, seria quase impossível a ventania marciana fazer tombar equipamentos pesados colocados na superfície, exigindo um aborto prematuro da missão e um retorno rápido ao espaço. A questão é que a atmosfera de Marte é muito rarefeita para isso. A baixa densidade torna o vento bem menos efetivo. Tanto é verdade que nunca nenhum dos nossos jipinhos tombou. Dificilmente um módulo de lançamento, maior e com muito mais massa, conseguiria ser inclinado pelos ventos a ponto de cair. Então, se a missão retratada no filme fosse na vida real, Watney jamais teria sido deixado sozinho no planeta.

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2 - Desenterrando jipes velhos

Mantendo a consistência interna e exagerando os efeitos da tempestade de areia em Marte, o acúmulo de poeira obrigou Mark Watney a literalmente desenterrar o Sojourner e a Pathfinder. No livro que inspirou o filme, os equipamentos não estão enterrados, e sim na superfície– o que é consistente com o que sabemos do transporte de poeira em Marte e com imagens de satélite que mostram ambos empoeirados, mas ainda firmemente acima do nível do solo, sobre a superfície marciana. Talvez para aumentar o suspense e o nível de hostilidade imposto pelo planeta, o diretor Ridley Scott tenha optado por mostrá-los enterrados. Aliás, outras licenças artísticas mostram, após esse "resgate", o Sojourner passeando distraidamente pelo habitat ocupado por Watney, como se fosse um droide de Star Wars. Na realidade, não é assim que funciona. O Sojourner nunca teve autonomia de movimento e todos os seus deslocamentos precisam ser programados.

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3 - Soltos no espaço

Outra opção artística que comprometeu, ainda que levemente, o realismo do filme, está nas sequências de caminhada espacial. Não vou entrar em detalhes para não estragar as surpresas, mas basta dizer que astronautas só podem avançar para fora da nave ou presos por um téter que os liga a ela, ou munidos de um equipamento que dê a eles o equivalente de um propulsor dirigível no espaço, permitindo que se movimentem de forma controlada. Essa regra nem sempre foi seguida ao longo do filme, talvez para aumentar os níveis de risco e heroísmo envolvidos. E Watney usa de um artifício no filme que, no livro, ele só sugere, mas acaba não colocando em prática. E era mesmo uma ideia terrível. Se funcionou ou não? Veja o filme para saber.

* Salvador Nogueira é jornalista de ciência, sócio-fundador da Associação Aeroespacial Brasileira, autor de oito livros e blogueiro da Folha de S.Paulo.

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