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"Aquarius" fica fora e Brasil escolhe filme da família Schurmann para Oscar

Do UOL, em São Paulo

12/09/2016 13h27Atualizada em 24/01/2017 13h19

O drama "Pequeno Segredo" será o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. Dirigido por David Schurmann e ainda inédito nos cinemas brasileiros, o longa desbancou "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, que era favorito à vaga. De acordo com Bruno Barreto, presidente da comissão de eleição, os votantes optaram por escolher "um filme que dialogasse mais com os critérios da Academia".

Schurmann é integrante da família que foi a primeira tripulação brasileira a dar a volta ao mundo em um veleiro, e "Pequeno Segredo" conta a história de Kat, a menina portadora de HIV adotada pela família em uma de suas viagens. Julia Lemmertz, Maria Flor e Marcelo Antony integram o elenco.

Em sua página no Facebook, o diretor agradeceu a indicação: "Obrigado a todos os que acreditam nesse filme. Meu profundo respeito a todos os maravilhosos filmes inscritos. Tenham certeza que faremos de tudo e não economizaremos energias para representar nosso país na premiação do Oscar 2017. Obrigado, Obrigado, obrigado!".

Programado para chegar aos cinemas de todo país em 10 de novembro, "Pequeno Segredo" fará uma pré-estreia limitada antes de 30 de setembro, ainda sem data definida, para poder se qualificar a concorrer ao Oscar 2017. 

"Aquarius"

A escolha do brasileiro indicado foi anunciada no início da tarde desta segunda-feira (12), na Cinemateca Brasileira de São Paulo, após uma reunião da comissão formada pela Secretaria do Audiovisual do MinC (Ministério da Cultura). 

"Aquarius", que era um dos favoritos a representar o Brasil depois da participação elogiada no Festival de Cannes deste ano, ainda pode concorrer a indicações em outras categorias, já que estreia nos Estados Unidos no fim de outubro. Pelas regras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, qualquer filme que estreie comercialmente até 31 de dezembro de 2016 na região de Los Angeles e fique em cartaz por pelo menos sete dias, com três sessões diárias, está apto a concorrer às estatuetas.

Reprodução
Mariana Goulart e Júlia Lemmertz em cena de "Pequeno Segredo" Imagem: Reprodução

Caso "Aquarius" consiga indicações em outras categorias, não será um fato inédito para o Brasil: "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, escolhido como representante brasileiro para o Oscar 2003, não ficou entre os finalistas de filme estrangeiro, mas foi nomeado em categorias de maior peso --direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem-- no ano seguinte.

Polêmica

Integravam a comissão de votantes Adriana Scorzelli Rattes, ex-secretária de estado de cultura do Rio de Janeiro; Luiz Alberto Rodrigues, sócio-diretor da Panda Filmes; George Torquato Firmeza, Diretor do Departamento Cultural do Itamaraty; Marcos Petrucelli, comentarista de cinema da rádio CBN; Paulo de Tarso Basto Menelau, da Moviemax, rede exibidora que atua em Pernambuco; Silvia Maria Sachs Rabello, presidente da Abeica (Associação Brasileira de Empresas de Infra-estrutura de Indústria Cinematográfica e Audiovisual); Sylvia Regina Bahiense Naves, assessora técnica em Acessibilidade do Audiovisual  da SAV do MinC; e os cineastas Carla Camurati ("Carlota Joaquina, Princesa do Brasil") e Bruno Barreto ("O que É Isso, Companheiro?").

A escolha do filme brasileiro foi feita a partir de uma lista de 16 longas inscritos, e foi envolta em polêmica por conta de declarações dadas por um dos membros da comissão, Marcos Petrucelli, contra as posições políticas de Kléber Mendonça Filho, diretor de "Aquarius", quando a equipe do filme protagonizou um protesto contra o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef durante a sessão de gala no Festival de Cannes, em maio.

A polêmica fez com que três diretores retirassem seus filmes da disputa --"Mãe Só Há Uma", de Anna Muylaert; "Boi Neon", de Gabriel Mascaro; e "Para Minha Amada Morte", de Aly Muritiba--, e também levou dois membros originais da comissão a deixarem seus postos --a atriz Ingra Liberato e o cineasta Guilherme Fiúza Zenha, que foram substituídos por Camurati e Barreto.

Diante da repercussão do caso, o ministro da Cultura Marcelo Calero, alvo de protestos desde que assumiu interinamente a pasta, informou em nota que tinha confiança na "isenção e na capacidade" da comissão. "Será um trabalho difícil, pois a safra de filmes brasileiros está excelente", afirmou.

Logo depois de saber sobre a não-indicação de "Aquarius", Anna Muylaert publicou um texto de desabafo em sua página no Facebook. "Escolher outro filme para representar o Brasil agora --um filme que ninguém viu-- não é apenas uma derrota para 'Aquarius', é antes de tudo uma mudança de rumo nos paradigmas de qualidade que viemos construindo todos nós juntos há anos (...) Com esta escolha de hoje, enterramos muito mais que um filme. Enterramos um paradigma de qualidade e legitimidade para o cinema brasileiro".

Brasil no Oscar

Em toda a história da Academia, o Brasil conquistou apenas quatro indicações para melhor filme estrangeiro. A última nomeação aconteceu em 1999, com "Central do Brasil", de Walter Salles, que também teve Fernanda Montenegro concorrendo como melhor atriz. Os outros indicados foram "O Pagador de Promessas" (1963), "O Quatrilho" (1996) e "O que É Isso, Companheiro?" (1998). Em 1960, o filme "Orfeu do Carnaval" (1960), coprodução de Brasil, França e Itália, venceu o prêmio da categoria tendo sido indicado como representante da França. A estatueta dourada foi recebida pelo diretor francês Marcel Camus.

Este ano, o Brasil conseguiu uma inédita indicação na categoria de animação com "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu. Em 2015, o documentário "O Sal da Terra", sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, também concorreu ao Oscar.

Os últimos escolhidos para representar o Brasil foram "Que Horas Ela Volta" (2016), de Anna Muylaert, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" (2015), de Daniel Ribeiro, "O Som ao Redor" (2014), de Kléber Mendonça Filho, "O Palhaço" (2013), de Selton Mello, "Tropa de Elite 2" (2012), de José Padilha, “Lula, o Filho do Brasil”, de Fábio Barreto (2011), “Salve Geral”, de Sérgio Rezende (2010), “Última Parada 174”, de Bruno Barreto (2009), “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger (2008) e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes (2007). A última vez em que o Brasil figurou entre os nove pré-finalistas foi em 2008, com "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (2008).

Os últimos vencedores do Oscar de filme estrangeiro foram “O Filho de Saul”, da Hungria (2016), “Ida”, da Polônia (2015), e “A Grande Beleza”, da Itália (2014).

Concorrentes pelo mundo

Além do Brasil, ao menos outros 30 países já escolheram seus representantes, incluindo alguns fortes concorrentes, como "Toni Erdmann", de Maren Ade (Alemanha), muito elogiado no Festival de Cannes; "Tanna" (Austrália), vencedor do prêmio do público na semana da crítica do Festival de Veneza; "Death in Sarajevo", de Danis Tanovic (Bósnia Herzegovina), vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim; "Julieta", de Pedro Almdóvar (Espanha), exibido no Festival de Cannes; “The Happiest Day in the Life of Olli Mäki” (Finlândia), de Juho Kuosmanen, que venceu a mostra Um Certo Olhar em Cannes este ano; "Sieranevada", de Cristi Puiu (Romênia), também elogiado em Cannes; “Desde Alla” (Venezuela), vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2015.

Os países têm até 3 de outubro para enviar seus representantes à Academia do Oscar. Todos os filmes têm que ter sido exibidos comercialmente em seus países de origem entre 1º de outubro de 2015 e 30 de setembro de 2016. Eles passam então por um primeiro comitê de seleção, formado por membros de todas as áreas do Oscar, que seleciona por votação nove finalistas, anunciados geralmente no meio de dezembro.

Esses nove pré-finalistas passam então por um novo comitê, que votará para escolher os cinco indicados, anunciados junto com todas as outras categorias em 24 de janeiro de 2017. A cerimônia de premiação do Oscar será realizada em 26 de fevereiro, no Dolby Theater, em Los Angeles.

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