PUBLICIDADE
Topo

Sob alerta de ataques, Festival de Cannes relaxa na segurança na 1ª sessão

Thiago Stivaletti

Colaboração para o UOL, em Cannes (França)

11/05/2016 10h09

Boa parte dos jornalistas chegou mais cedo para a primeira sessão de imprensa do Festival de Cannes nesta quarta (11) de manhã – do filme de abertura, “Café Society”, de Woody Allen. Com a notícia de que a cidade está sob alerta máximo para ataques terroristas após os atentados de novembro em Paris, que deixaram 130 mortos, todos esperavam detector de metais e uma revista das bolsas e mochilas muito mais criteriosa do que nos últimos anos, o que aumentaria as filas de espera para entrar na sala.

Engano: a revista foi relaxada como sempre. A funcionária que fez a revista da mochila da reportagem do UOL mal olhou os bolsos de fundo, onde estavam guarda-chuva, biscoitos e balas –pelas regras é proibido entrar com comida, mas é preciso sobreviver a um dia inteiro sem almoço. Ela apenas viu o notebook, perguntou se havia alguma garrafa de água (não havia) e liberou a passagem.

Nada de detector de metal para as bolsas também. Seguranças em pé passaram um rápido detector pelo corpo, e nem pediram para checar o celular no bolso quando o detector apitou –como naquelas revistas para entrar em shows e casas noturnas, em que no fundo dá para entrar com qualquer droga, desde que bem escondida. Apenas os jornalistas com mochilas muito grandes eram orientados a deixá-las num guarda-volumes.

Talvez o festival e a prefeitura de Cannes considerem que um terrorista não consiga entrar nessas sessões sem uma das disputadíssimas credenciais de imprensa do festival, divididas por cor –portadores de brancas e rosas dão acesso a tudo; aqueles com azuis e amarelas só conseguem entrar nas sessões se encararem filas de mais de uma hora, e muitas vezes ficam de fora. Mas nenhuma identidade é pedida aos jornalistas para entrar na sala. Ou seja, bastaria um repórter emprestar sua credencial a um sujeito suspeito que ele entraria no cinema sem problema.

Na verdade, a segurança relaxada começa já no aeroporto de Nice, onde se desembarca para depois ir a Cannes de ônibus ou táxi. Na saída, não há nenhuma revista, inspeção de bagagem ou controle de passaporte –como todos os anos, o passageiro chega, desembarca e ganha a rua numa boa, como se chegasse numa rodoviária. Nada parecido com o controle absoluto de Nova York depois do 11 de setembro de 2001, por exemplo.

Vamos aguardar para ver se a segurança será reforçada na sessão de gala da abertura, nesta quarta à noite, e em todas as sessões de gala ao longo do evento, cujo tapete vermelho é clicado por centenas de fotógrafos.

O ministro do interior da França esteve em Cannes no início da semana para inspecionar os procedimentos de segurança. “Precisamos ter em mente enquanto nos preparamos para o início do festival que estamos diante de um risco que nunca foi tão alto, e de um inimigo determinado a nos atacar a qualquer momento. Precisamos demonstrar vigilância extrema o tempo todo", disse Bernard Cazeneuve.

Ao todo, 200 policiais armados já andam pelas ruas com uniforme militar ostentando seus fuzis –algo inédito na cidade. A equipe inclui também esquadrão antibombas. Na última terça, jornalistas e outras pessoas que estavam no Palácio dos Festivais tiveram que evacuar o local “devido a um problema técnico”– no que pareceu um último teste antes do início do festival. Não havia nenhuma ameaça concreta.

As autoridades de Cannes sabem que o Palácio dos Festivais é apenas parte do problema. Durante as sessões de gala, a avenida em frente ao Palácio fica bloqueada para acesso aos carros que trazem as estrelas, e centenas de pessoas se espremem para conseguir circular. Uma bomba em qualquer ponto poderia causar um estrago gigante, com muitas vítimas.

Sem histórico de segurança contra atentados, a França ainda parece tratar o assunto sem muita gravidade. Pelo que se vê nos primeiros dias, não seria muito difícil provocar um estrago no festival mais midiatizado do mundo, onde centenas de jornalistas e equipes de TV dariam enorme visibilidade a qualquer atentado.