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Em Cannes, cinema brasileiro reage à extinção do Ministério da Cultura

Thiago Stivaletti

Colaboração para o UOL, em Cannes (França)

13/05/2016 10h36

A confirmação de que o MinC (Ministério da Cultura) será extinto, com suas ações integradas ao Ministério da Educação, desagradou os produtores brasileiros que estão no Festival de Cannes divulgando seus filmes e fazendo reuniões sobre novos projetos.

Kléber Mendonça Filho, diretor de “Aquarius” --único brasileiro concorrente à Palma de Ouro--, não confirma se haverá algum ato na sessão de gala de seu filme, marcada para a próxima terça-feira (17), mas vem abordando o assunto ao longo das entrevistas que está dando no festival, muitas delas para a imprensa estrangeira.

“Não sou um militante, mas apenas um cidadão brasileiro envergonhado pelo processo antidemocrático pelo qual o Brasil passa. Se o assunto vem à tona, dou minha opinião. E a pergunta está sendo feita em Cannes”, afirmou à reportagem do UOL. “Ainda é cedo para saber o que vai acontecer, mas a extinção do Ministério da Cultura é um péssimo indicador.”

O cineasta Eryk Rocha, filho de Gláuber Rocha, que também apresenta seu documentário "Cinema Novo" em Cannes, disse estar perplexo e apontou a importância da indústria cultural no mundo. "Estamos perplexos diante de um golpe parlamentar-jurídico cujos desdobramentos são imprevisíveis. Esses ciclos de interrupções e recomeços fazem parte da trágica tradição da América Latina", afirmou. "A extinção do Ministério da Cultura é mais uma violência desse retrocesso brutal. Em todos os países desenvolvidos do mundo, a cultura é uma questão estratégica de estado, espelho complexo de um povo, além de ser uma das maiores indústrias do mundo contemporâneo. A história é feita de lutas, só posso lamentar profundamente e lutar para que isso seja revisto o quanto antes."

Ainda é cedo para saber o que vai acontecer, mas a extinção do Ministério da Cultura é um péssimo indicador. Kléber Mendonça

“Claro que a extinção do MinC não é uma boa notícia", pondera André Sturm, diretor do Cinema do Brasil, órgão federal de promoção do cinema brasileiro no exterior. "Se houve uma política pública que teve um forte crescimento nos últimos 18 anos, foi a da cultura. Mas acho precipitado dizer que vai haver um retrocesso. Imagino que vai se escolher um bom nome para a Secretaria de Cultura, vamos aguardar”.

Em Cannes, o diretor-presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema), que administra e regula o fomento do governo aos filmes nacionais, preferiu não se pronunciar sobre as ações do novo governo. Mesmo com o fim do Ministério da Cultura, seu mandato é garantido por lei até o final de 2017.

Pelo Facebook, os produtores presentes no festival estão articulando pequenas ações de protesto contra o impeachment, como produzir faixas com dizeres em inglês para serem fotografadas quando passarem no tapete vermelho da sessão de gala de “Aquarius”. Diretores e produtores latino-americanos também estão sendo contatados para prestar solidariedade a Dilma Roussef nas entrevistas e apresentações de sessão no festival.

Entenda o caso

Ao divulgar a nova equipe ministerial, o presidente interino Michel Temer anunciou também a fusão de alguns ministérios, entre eles os da Cultura e da Educação, sendo que o primeiro passa a ser um departamento da pasta comandada pelo deputado federal Mendonça Filho (DEM-PE). Ainda não se sabe como isso afetará os órgãos subordinados ao antigo ministério, como a Ancine.

O MinC (Ministério da Cultura) já perdeu o status de ministério no passado, no governo Collor, período que ficou conhecido como "desmonte" da cultura. Por essa razão, analistas veem a mudança como um retrocesso nas políticas públicas de fomento ao setor, que ajudaram, por exemplo, a estruturar uma indústria cinematográfica bastante saudável, com 128 filmes vistos por 22 milhões de pessoas em 2015, contra apenas um lançado em 1992, último ano do governo Collor.

O pouco envolvimento do novo ministro e de seu partido com a cultura também acendeu um alerta no setor, intensificado pela inclinação de Mendonça Filho às privatizações, raciocínio que vai na direção oposta à política adotada pelo ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, que teve como base a intensificação das iniciativas de fomento à atividade cultural por meio de bolsas, editais e leis de incentivo.

Especula-se também que a tão criticada Lei Rouanet deve ser priorizada como principal (se não única) forma de fomento à cultura durante a nova gestão, e que editais de instituições como a Funarte (Fundação Nacional de Artes, órgão responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas de fomento às artes visuais, à música, ao teatro, à dança e ao circo) podem desaparecer.