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Como o assédio fez Netflix e Amazon perderem seus principais protagonistas

Netflix e Amazon perderam Kevin Spacey e Jeffrey Tambor em meio ao escândalo de assédio em Hollywood - Divulgação/Montagem UOL
Netflix e Amazon perderam Kevin Spacey e Jeffrey Tambor em meio ao escândalo de assédio em Hollywood
Imagem: Divulgação/Montagem UOL

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

21/11/2017 04h00

Em menos de um mês, os dois maiores serviços de streaming da indústria cinematográfica perderam seus principais protagonistas. A Netflix deu adeus a Kevin Spacey, de “House of Cards”, e o Amazon Prime Video viu o premiado Jeffrey Tambor, de “Transparent”, pedir as contas. E pelo mesmo motivo: as graves denúncias de assédio e abuso sexual que vem abalando Hollywood nos últimos meses.

Vencedor de dois Oscars, Spacey foi o primeiro nome de peso a assinar um contrato com a Netflix para uma série original – e é creditado como um dos fatores por trás do grande sucesso de “House of Cards”. Mas ele viu sua reputação ir de mal a pior após uma entrevista do ator Anthony Rapp, que acusou o veterano de assediá-lo quando tinha apenas 14 anos. A resposta do ator não ajudou: ele disse que não se lembrava do ocorrido e aproveitou para assumir que é homossexual, um movimento considerado oportunista por grande parte da comunidade LGBT e duramente criticado nas redes sociais.

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A situação fez a Netflix anunciar que a sexta temporada seria a última da série – uma decisão que havia sido tomada antes da acusação, mas que com certeza a empresa esperava anunciar em um momento mais feliz. No dia seguinte, a produção dos novos episódios foi suspensa para que a equipe pudesse “avaliar a situação”.

Mas se existia qualquer possibilidade de o astro retornar à série como Frank Underwood, não demorou muito para ela ser enterrada. Surgiram várias outras denúncias contra Spacey, incluindo as de oito funcionários de “House of Cards”, e ele passou a ser investigado pela polícia britânica por uma acusação de estupro. A Netflix então anunciou que não trabalharia “em qualquer produção de ‘House of Cards’ que inclua Kevin Spacey”, cortando os laços com o ator.

Mais de 15 dias se passaram, e a plataforma de streaming ainda não anunciou nenhuma novidade sobre a série. Segundo a rede CNN, os roteiristas de “House of Cards” estão correndo contra o tempo para reescrever os episódios sem Frank Underwood – aproveitando uma brecha deixada pela quinta temporada, que estreou neste ano.

Há quem acredite, porém, que a situação não deve ser resolvida tão facilmente, já que Spacey também ocupa o cargo de produtor da série – o que pode levar a uma disputa na Justiça entre ele, a Netflix e a produtora Media Rights Capital. O ator está internado em uma clínica de reabilitação, para tratar um suposto vício em sexo.

Em “Transparent”, a história foi parecida. O protagonista Jeffrey Tambor, que já ganhou dois Emmys e um Globo de Ouro pelo papel da mulher trans Maura Pfefferman, foi acusado de assédio por sua ex-assistente pessoal, Van Barnes. Ele negou as acusações, mas passou a ser investigado pela Amazon.

Dias depois, veio à tona mais uma denúncia: a da atriz trans Tracee Lysette, que afirmou que o ator a assediou verbalmente e se esfregou nela no set de filmagens da série. Tambor mais uma vez voltou a se pronunciar: ele pediu desculpas se “qualquer ação foi mal interpretada” e disse que não era “um predador”.

No último domingo, no entanto, ele comunicou sua decisão de se desligar da série, em meio a rumores que os roteiristas estavam considerando escrever a quinta temporada sem ele: “Já deixei claro que lamento profundamente se alguma ação minha foi mal interpretada por alguém como sendo agressiva, mas a ideia de que eu deliberadamente assediaria alguém é simplesmente uma inverdade. Dada a atmosfera politizada que parece ter atingido nosso set, eu não vejo como voltar à série”.

A Amazon ainda também não se pronunciou ainda sobre o futuro da trama.

Escândalos em Hollywood

Vários atores e cineastas poderosos vêm sendo alvos de acusações desde que uma reportagem publicada pelo "The New York Times" no início de outubro revelou que o produtor Harvey Weinstein assediou mulheres durante décadas. Dias depois, a revista "New Yorker" publicou sua própria reportagem sobre o tema -- dessa vez, com acusações de estupro.

Com o passar dos dias, o número de denúncias explodiu. Nomes de peso da indústria, como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Mira Sorvino e Rosanna Arquette também acusaram o magnata. Weinstein, que ao lado do irmão Bob construiu uma fábrica de sucessos de bilheteria, com 80 premiações do Oscar e mais de 300 indicações, deixou o seu cargo na empresa que fundou e foi expulso do Sindicato dos Produtores e da Academia.

A repercussão do caso fez com que várias outras famosas relatassem suas experiências: Reese Whiterspoon, por exemplo, contou que foi abusada por um diretor quando tinha apenas 16 anos, e Jennifer Lawrence revelou que foi colocada nua em uma fila com outras atrizes e chamada de "comível" por um produtor.

38 mulheres também denunciaram o cineasta James Toback, indicado ao Oscar pelo filme "Bugsy", em uma reportagem do jornal "Los Angeles Times". Depois da publicação, o número de acusações subiu para cerca de 300.