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Jia Zhangke reflete sobre a violência na sociedade chinesa em Cannes

Alicia García de Francisco

De Cannes (França)

17/05/2013 20h56

Violência e falta de comunicação são os elementos comuns das quatro histórias que formam "A Touch of Sin", filme com o qual o chinês Jia Zhangke concorre na seção oficial do Festival de Cannes e com o qual quis mostrar seu "sentimento de rejeição" em relação à sociedade em que vive.

São quatro histórias baseadas em fatos reais protagonizados por quatro pessoas diferentes em quatro províncias da China e que mostram a visão do diretor perante o desenvolvimento econômico brutal de seu país e a corrupção e violência.

"Observei até que ponto os últimos eventos na China foram de uma violência extrema - advertiu Zhangke -, o que me preocupou e me fez sentir a necessidade de contar isso no cinema e, sobretudo, analisar as razões que podem levar uma pessoa a reagir de forma tão violenta".

Quatro relatos independentes com pequenos elementos em comum. Dahai é o minerador que explode perante a falta de atendimento das autoridades às suas denúncias de corrupção; Xiao Hui, um jovem que muda continuamente de trabalho e não encontra seu lugar.

Há também Xiao Yu, uma recepcionista em uma sauna assediada por um cliente rico e poderoso; e Son'er, um trabalhador imigrante que descobre o fácil que pode ser roubar e matar.

Sangue e explosões de violência estão presentes na maior parte destes relatos, nos quais o diretor tenta se distanciar e deixar que o espectador tire suas próprias conclusões.

"Quando pensamos nos destinos dessas pessoas, há uma grande teatralidade no que lhes ocorre, nesse mundo de extrema violência no qual vivem", explicou o cineasta, que em "A Touch of Sin" tenta refletir essa situação cada vez mais habitual em seu cinema.

Uma violência que se assemelha à que se vivia na China há séculos, com as dinastias que regiam o país. E, embora externamente tudo tenha mudado muito, "internamente é o mesmo", disse Zhangke.

Agora existe o trem de alta velocidade e a internet, "mas, no final das contas, não acredito que o ser humano tenha mudado tanto".

"As pessoas estão acostumadas a ver violência na televisão, mas na realidade se esquecem muito rapidamente. Espero que este filme gere um debate", comentou o diretor.

Um filme que não teve problemas de censura, tema sobre o qual não gosta de falar o diretor, que afirmou "querer preservar sua liberdade de criação" e que faz "todo o possível" para não censurar a si mesmo.

"Uma obra deve fazer parte do meu desejo de liberdade, de todo meu imaginário, de tudo o que sinto. Uma vez que o produto existe, é quando coloco o melhor meio para que a maior parte possível de espectadores chineses possa ver o filme", explicou, sem detalhar o que faz para driblar a dura censura chinesa.